Sievers, o homem transparente (publicado na "Livros")
“Era eu o homem com sorte. Caramba, convivera com Wolfgang Sievers e éramos amigos.” É assim que Jorge Calado termina a biografia de Sievers (“o homem com sorte”, entre outras coisas por ter escapado milagrosamente aos nazis), um dos textos deste livro-catálogo editado com a retrospectiva no Arquivo Fotográfico da CML.
Não é caso para menos. A história do fotógrafo alemão naturalizado australiano, escrita num português límpido, atravessa grande parte do século XX (Sievers nasceu em 1913) e é vivida por um personagem que encarna com uma honestidade desarmante alguns dos poucos ideais que ainda vão sobrevivendo ao século que termina. Em 1967, em plena guerra do Vietname em que a Austrália se envolvera, Sievers exibe numa montra de Melbourne uma instalação: “Grandes panos negros, o cartaz duma fotografia (não sua) dum soldado americano exibindo, como se fora um troféu, a cabeça dum vietnamita e a seguinte declaração: ‘Eu, Wolfgang Sievers, vítima da perseguição nazi, prisioneiro da Gestapo, voluntário da AIF e RAAF 1939, voluntário do Exército Australiano de 1942 a 1946, protesto: contra esta guerra não declarada; contra a lotaria da mobilização; contra a prisão dos objectores de consciência cuja atitude foi consagrada no Julgamento de Nuremberga como um dever de todos os homens.”
Judeu “malgré lui” - a mãe, cristã, era filha de pais judeus, e a condição de judeu transmite-se por via materna - Sievers vem para Lisboa em 1933 a conselho do pai, que pressentia o perigo da ascensão nazi, e conserva desse período recordações deliciosas, como uma “Guia Nocturna do Amor Livre” que “não deve faltar a qualquer homem evitando desta maneira a prostituição clandestina nas ruas da capital”, e a memória do “namoro de gargarejo” com a rapariga da varanda em frente: “Nesse tempo só se podia falar com a menina a partir da rua - com toda a gente a ouvir (…) o máximo que consegui foi mostrar-lhe um ramo de flores”. São de Portugal a maior parte das fotografias anteriores à II Guerra aqui reproduzidas, entre elas a da dita menina à varanda, acompanhada do comentário que se reproduz parcialmente acima.
“É irrelevante saber se estas fotografias representam apenas habilidade técnica, arte ou ambas. Os curtos textos que as acompanham na exposição são igualmente importantes”, escreve Sievers. De facto, as legendas dialogam com as imagens, desconstruindo-as alegremente. Um dos primeiros exemplos aparece numa fotografia da Igreja Alemã de Lisboa (1934): “Levei horas para tirar esta fotografia, tudo por causa das três bandeiras: tive de esperar muito tempo até que a bandeira portuguesa ficasse bem desfraldada, a alemã só um pouco e a da suástica nazi nada mesmo.” As legendas são reproduzidas no final do livro, tendo Calado optado por remeter o leitor para os seus textos nos casos em que são neles mencionadas - e é pena que não tenham sido reproduzidas na íntegra.
Quando o percurso do fotógrafo estabiliza na fotografia industrial, já na Austrália, depois de ter passado pela fotografia de arquitectura e de publicidade, a desconstrução chega a tornar-se desconcertante, mesmo para uma fotografia que se assume não-realista, limpa e encenada, nos antípodas do “neo-realismo” de um Sebastião Salgado. Por exemplo, uma fotografia de impecáveis bobinas de lã tem como legenda: “As condições nesta fábrica variavam entre o razoável e o horroroso (…) ainda hoje tenho nos ouvidos a barulheira insuportável das máquinas (…) muitos dos operários preferiam passar os intervalos do almoço dobrados sobre as máquinas.”
As fábricas eram quase sempre fotografadas de noite, previamente limpas e arrumadas e com os operários devidamente barbeados - Sievers andava sempre com uma gilette para o caso de ser preciso. Por vezes as imagens são funcionalmente absurdas: é o caso da fotografia em que duas metades duma roda dentada gigante estão colocadas uma sobre a outra; ou a de um desenhador industrial fotografado de baixo a desenhar sobre um vidro transparente, com o negativo impresso ao contrário de modo a que se consigam ler as letras do desenho.
Com a cor, as fotografias ganham uma dimensão cinematográfica - o amontoador de bauxite (fotografado imediatamente antes do nascer do sol porque “durante o dia não tinha graça nenhuma”), a plataforma petrolífera (de que Sievers opta por fotografar a parte de baixo batida pelas ondas) ou a escavadora de arrasto (em que o fotógrafo tenta, e c
O humor de Sievers não esconde uma certa má consciência em relação à sua actividade - só não fica claro se isso é um sinal dos tempos (a chegada da era Greenpeace) ou se é mesmo um mal estar acumulado - que o leva finalmente a desistir da fotografia profissional, já perto dos oitenta anos.
O livro termina com um curto ensaio, também de Calado, sobre “Wolgang Sievers e o renascimento da fotografia industrial”. Ficam duas dúvidas complementares: até que ponto a notoriedade de Sievers se deve a um (tardio) reconhecimento como “artista” (e isto sem pôr em causa o seu enorme talento), apesar de quase toda a sua produção resultar de encomendas de empresas industriais e do estado australiano - para mais tendo em conta o destino que tiveram algumas fotografias (por exemplo, uma delas foi parcialmente aproveitada para a capa dum relatório anual de contas da Shell Australia); e se não haverá muitos outros bons fotógrafos industriais (inclusive em Portugal) que não são reconhecidos como tal apenas porque não tiveram a mesma oportunidade.
Linha de Vida - A Fotografia de Wolfgang Sievers
Jorge Calado
Arquivo Fotográfico da CML
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Não é caso para menos. A história do fotógrafo alemão naturalizado australiano, escrita num português límpido, atravessa grande parte do século XX (Sievers nasceu em 1913) e é vivida por um personagem que encarna com uma honestidade desarmante alguns dos poucos ideais que ainda vão sobrevivendo ao século que termina. Em 1967, em plena guerra do Vietname em que a Austrália se envolvera, Sievers exibe numa montra de Melbourne uma instalação: “Grandes panos negros, o cartaz duma fotografia (não sua) dum soldado americano exibindo, como se fora um troféu, a cabeça dum vietnamita e a seguinte declaração: ‘Eu, Wolfgang Sievers, vítima da perseguição nazi, prisioneiro da Gestapo, voluntário da AIF e RAAF 1939, voluntário do Exército Australiano de 1942 a 1946, protesto: contra esta guerra não declarada; contra a lotaria da mobilização; contra a prisão dos objectores de consciência cuja atitude foi consagrada no Julgamento de Nuremberga como um dever de todos os homens.”
Judeu “malgré lui” - a mãe, cristã, era filha de pais judeus, e a condição de judeu transmite-se por via materna - Sievers vem para Lisboa em 1933 a conselho do pai, que pressentia o perigo da ascensão nazi, e conserva desse período recordações deliciosas, como uma “Guia Nocturna do Amor Livre” que “não deve faltar a qualquer homem evitando desta maneira a prostituição clandestina nas ruas da capital”, e a memória do “namoro de gargarejo” com a rapariga da varanda em frente: “Nesse tempo só se podia falar com a menina a partir da rua - com toda a gente a ouvir (…) o máximo que consegui foi mostrar-lhe um ramo de flores”. São de Portugal a maior parte das fotografias anteriores à II Guerra aqui reproduzidas, entre elas a da dita menina à varanda, acompanhada do comentário que se reproduz parcialmente acima.
“É irrelevante saber se estas fotografias representam apenas habilidade técnica, arte ou ambas. Os curtos textos que as acompanham na exposição são igualmente importantes”, escreve Sievers. De facto, as legendas dialogam com as imagens, desconstruindo-as alegremente. Um dos primeiros exemplos aparece numa fotografia da Igreja Alemã de Lisboa (1934): “Levei horas para tirar esta fotografia, tudo por causa das três bandeiras: tive de esperar muito tempo até que a bandeira portuguesa ficasse bem desfraldada, a alemã só um pouco e a da suástica nazi nada mesmo.” As legendas são reproduzidas no final do livro, tendo Calado optado por remeter o leitor para os seus textos nos casos em que são neles mencionadas - e é pena que não tenham sido reproduzidas na íntegra.
Quando o percurso do fotógrafo estabiliza na fotografia industrial, já na Austrália, depois de ter passado pela fotografia de arquitectura e de publicidade, a desconstrução chega a tornar-se desconcertante, mesmo para uma fotografia que se assume não-realista, limpa e encenada, nos antípodas do “neo-realismo” de um Sebastião Salgado. Por exemplo, uma fotografia de impecáveis bobinas de lã tem como legenda: “As condições nesta fábrica variavam entre o razoável e o horroroso (…) ainda hoje tenho nos ouvidos a barulheira insuportável das máquinas (…) muitos dos operários preferiam passar os intervalos do almoço dobrados sobre as máquinas.”
As fábricas eram quase sempre fotografadas de noite, previamente limpas e arrumadas e com os operários devidamente barbeados - Sievers andava sempre com uma gilette para o caso de ser preciso. Por vezes as imagens são funcionalmente absurdas: é o caso da fotografia em que duas metades duma roda dentada gigante estão colocadas uma sobre a outra; ou a de um desenhador industrial fotografado de baixo a desenhar sobre um vidro transparente, com o negativo impresso ao contrário de modo a que se consigam ler as letras do desenho.
Com a cor, as fotografias ganham uma dimensão cinematográfica - o amontoador de bauxite (fotografado imediatamente antes do nascer do sol porque “durante o dia não tinha graça nenhuma”), a plataforma petrolífera (de que Sievers opta por fotografar a parte de baixo batida pelas ondas) ou a escavadora de arrasto (em que o fotógrafo tenta, e c
onsegue, transmitir “os sons dramáticos da indústria mineira”).

O humor de Sievers não esconde uma certa má consciência em relação à sua actividade - só não fica claro se isso é um sinal dos tempos (a chegada da era Greenpeace) ou se é mesmo um mal estar acumulado - que o leva finalmente a desistir da fotografia profissional, já perto dos oitenta anos.
O livro termina com um curto ensaio, também de Calado, sobre “Wolgang Sievers e o renascimento da fotografia industrial”. Ficam duas dúvidas complementares: até que ponto a notoriedade de Sievers se deve a um (tardio) reconhecimento como “artista” (e isto sem pôr em causa o seu enorme talento), apesar de quase toda a sua produção resultar de encomendas de empresas industriais e do estado australiano - para mais tendo em conta o destino que tiveram algumas fotografias (por exemplo, uma delas foi parcialmente aproveitada para a capa dum relatório anual de contas da Shell Australia); e se não haverá muitos outros bons fotógrafos industriais (inclusive em Portugal) que não são reconhecidos como tal apenas porque não tiveram a mesma oportunidade.
Linha de Vida - A Fotografia de Wolfgang Sievers
Jorge Calado
Arquivo Fotográfico da CML
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As voltas que o metro dá (publicado n' "O Independente")
Em 1988, passados 16 anos da inauguração do troço Anjos-Alvalade, abriam ao público três novas estações no metro de Lisboa: Laranjeiras, Alto dos Moinhos e Colégio Militar. Os lisboetas, que durante anos ansiaram pelo prolongamento do metro no centro da cidade e desesperavam com a insuficiência do serviço prestado pela Carris, assistiam, em vez disso, à extensão da rede para uma zona quase desabitada, com estações abertas em descampados. A populosa zona de Benfica, mesmo ao lado, era ignorada. Apenas a estação do Colégio Militar se justificava pelo novo interface com os autocarros suburbanos.
Dez anos depois inaugurava-se a linha do Oriente. Por entre a euforia com a Expo'98 e a arquitectura das novas estações, quase ninguém se interrogou sobre o traçado da linha. E no entanto, quem foi lá cima ficou de novo estupefacto com a estação da Bela Vista, situada num descampado a meio da zona de Chelas.
Fomos tentar perceber a lógica de tudo isto. Não foi nada fácil: o Metropolitano de Lisboa - numa atitude de legalidade duvidosa, tratando-se duma empresa pública e concessionária dum serviço público - recusou-se dar-nos acesso a qualquer documentação interna, bem como a conceder-nos uma entrevista. Mas conseguimos perceber algumas coisas: as linhas do Colégio Militar e do Oriente são de facto tabu para a empresa; a expansão da rede foi, ao longo dos anos, fonte de conflitos entre a administração do metro e a tutela; e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) mantém uma relação ambígua com o Metropolitano: não estando representada na administração, acaba por ter uma influência determinante na definição da rede, conseguindo com que o metro avance por terrenos municipais em obediência a planos de urbanização que nem sempre consegue pôr em prática.
O ovo de Colombo
No princípio dos anos 80 decidiu-se pôr em prática um antigo plano que previa a construção dum Centro Administrativo, e o metro foi prolongado para os terrenos municipais em que ele seria construído. Quando a obra estava quase concluída, o plano foi abandonado, e a grande justificação passou a ser o interface do Colégio Militar. Entretanto, em 1987, a CML decidira ceder, em troca da construção das infraestruturas rodoviárias, um enorme lote de terreno mesmo ao lado desta estação para construção dum centro comercial. E dez longos anos e muitos percalços mais tarde o imponente Colombo era inaugurado.
Entretanto, as estações das Laranjeiras, para onde estava previsto o Luna Parque, e do Alto dos Moinhos, que esteve quase até à véspera da inauguração para se chamar Centro Administrativo, continuam quase às moscas.
A caminho do Oriente
No Plano de Urbanização de Chelas, de 1964, já estava prevista uma estação no chamado Centro de Chelas, que iria servir um grande complexo comercial e de serviços. No Plano Estratégico de Lisboa, de 1992, esta opção foi retomada.
José Manuel Viegas, catedrático de Transportes no Instituto Superior Técnico, foi o responsável pela elaboração do traçado: "A longo prazo, a linha da Expo seria a grande transversal oblíqua da rede de metro que cruzaria todas as outras e as ligava à estação do Oriente, o principal términus das linhas ferroviárias de longo curso. No curto prazo, houve uma preocupação de promover a coesão social em Chelas, evitando que esta zona se transformasse num gueto."
O projecto em curso no centro de Chelas consiste em quatro torres de 16 andares para habitação no segmento médio/alto, escritórios e um centro comercial Feira Nova, e é altamente controverso (ver texto ao lado). Mas o bairro camarário da Quinta do Armador, situado mesmo ao lado, não tem ainda uma saída de metro. O mesmo se passa com a mais populosa Quinta do Condado (a célebre Zona J). De qualquer modo, a grande dispersão geográfica e as novas ligações rodoviárias que entretanto quebraram o isolamento do bairro fazem prever que as duas estações de Chelas continuem a não ser muito utilizadas pelos seus habitantes, tal como acontece com a dos Olivais. E a estação do Oriente não cumpre a função para que foi pensada, e parece duvidoso que alguma vez o venha a fazer.
Os planos do Metro
Desde o princípio que as sucessivas administrações do Metro pensaram em dar prioridade ao alargamento da rede no centro da cidade. Em Janeiro de 1985 Pestana Bastos, então presidente da empresa, afirmava ao "Expresso", a propósito do prolongamento do Colégio Militar: "Foi tudo feito ao contrário". Em Outubro de 1992, o seu sucessor Consiglieri Pedroso resignava-se: "Dizem-nos para onde querem levar o metro, e nós estudamos tudo, dizemos como se faz e, se aprovarem, fazemos", afirmava ao "Público", ao mesmo tempo que revelava os seus planos para servir a Expo'98: a partir do Campo Grande, pelo Aeroporto, Olivais, Moscavide e Sacavém, com uma ligação por monorail ao recinto da exposição.
Nesse mesmo ano, o Metro e a STCP, juntamente com José Manuel Viegas, tinham constituído a TIS, que passa a elaborar os planos de expansão da rede, e em Abril de 1993 o ministro Ferreira do Amaral anuncia a construção da linha do Oriente com o actual traçado.
Uma questão de prioridades
Segundo um estudo de tráfego referente a Dezembro de 1999, várias estações da linha azul estão quase às moscas (Parque, Laranjeiras, Alto dos Moinhos e Carnide, todas com menos de 8 mil passageiros por dia). A linha do Oriente é um fracasso na generalidade - as estações de Olivais, Bela Vista e Cabo Ruivo registam valores ainda mais reduzidos, apesar dos cerca de 54 mil habitantes de Chelas e dos 100 mil dos Olivais.
O metro é uma infraestrutura muito cara - o plano de expansão da rede entre 1989 e 2000, que inclui as linhas da Baixa, a extensão à Pontinha e a linha do Oriente, foi orçamentado em 395,6 milhões de contos, e o último relatório e contas do Metropolitano de Lisboa, de 1998, revela um resultado líquido negativo de 15,682 milhões de contos. Segundo Fernando Nunes da Silva, urbanista e especialista em transportes do Instituto Superior Técnico, o valor a partir do qual se justifica o investimento no metro é de 10 mil passageiros por hora no período de ponta.
O que está em causa é a estratégia e as prioridades. "A primeira prioridade do metro deveria ter sido desenvolver os transportes públicos no centro da cidade, de modo a que constituíssem uma boa alternativa ao transporte individual", diz Margarida Sousa Lobo, urbanista e professora da Universidade Nova. "Não tem havido uma estratégia a longo prazo do Metropolitano de Lisboa", defende Nunes da Silva. "Houve decisões avulsas que talvez se expliquem pela promoção imobiliária, mas não certamente pelas necessidades imperiosas da cidade de Lisboa. O que tem acontecido é o Estado financiar linhas que beneficiam negócios privados, que ficam com esta infraestrutura de borla. A prioridade absoluta era a ligação ao rio e com os caminhos de ferro suburbanos, além da ligação entre as várias linha radiais e o serviço das zonas onde é mais difícil de assegurar o transporte rodoviário.". O seu colega José Manuel Viegas concorda na generalidade, mas acrescenta, pragmático: "A democracia tem os seus custos, e as razões do político nem sempre coincidem com a do técnico."
Ana Paula Vitorino, também urbanista do Técnico e ex-chefe de gabinete do secretário de Estado dos Transportes no primeiro governo de Guterres, deita água na fervura, lembrando que a construção de linhas na zona histórica de Lisboa é tecnicamente mais difícil e cara do que na zona alta, devido ao relevo acidentado, ao traçado das ruas - que não permite a construção a céu aberto - e ao estado precário de muitos edifícios - e aqui basta pensar em todos os percalços ocorridos nas linhas Baixa, como no Carmo e agora no Terreiro do Paço.
Uma solução?
A partir da nacionalização do Metro (que até aí pertencia à CML), em 1975, as decisões dos sucessivos governos e as pressões da CML sobrepuseram-se aos planos de várias administrações da empresa, sem que as responsabilidade possam ser claramente atribuídas, uma vez que estão diluídas entre a empresa, a CML e a tutela. Os prejuízos são cobertos, é claro, pelo Estado - ou seja, por todos nós.
"Quem vai explorar a rede deve participar na sua concepção e assumir os custos de exploração", defende Nunes da Silva. Ou seja, se as câmaras, por exemplo, assumissem os custos de exploração do metro não iriam pressionar a construção de linhas sem passageiros.
Ana Paula Vitorino é contra esta opção, afirmando que o Estado deve limitar-se a coordenar e construir as infraestruturas, entregando depois a exploração a privados e põe a tónica na necessidade duma autoridade metropolitana de transportes que assuma esse papel - necessidade com que todos os especialistas e transportadoras concordam.
Entretanto, a história repete-se: a ultraprioritária ligação entre a Alameda e S. Sebastião - a tal que justificava a opção da linha do Oriente - foi adiada a favor do prolongamento da linha da Pontinha para a Falagueira, na Amadora - cuja estação terminal fica, mais uma vez, num descampado. E o ministro do Equipamento acaba de anunciar a construção duma linha de monorail entre o Parque das Nações e o aeroporto.
Caixa
Uma experiência controversa
O bairro de Chelas teve uma infância atribulada que o marcou para sempre. Foi um dos últimos, na sequência de Alvalade e dos Olivais, duma série de bairros planeados de raiz e construídos graças às expropriações em massa feitas pelo célebre ministro das Obras Públicas do governo de Salazar e presidente da CML, Duarte Pacheco.
O bairro fora concebido, tal como os outros, para residência de pessoas de vários estratos - recorde-se que grande parte de Alvalade são bairros sociais, por estranho que isso nos pareça agora. As ocupações durante o Verão Quente de 1975 marcaram para sempre o destino de Chelas, e as políticas de realojamento que se seguiram ao longo dos anos mais não fizeram do que agravá-lo, tornando-o uma espécie de gueto isolado do resto da cidade. Os espaços verdes só recentemente têm vindo a ser concretizados, e o centro de comércio e serviços previsto começou agora a ser construído (o dos Olivais demorou 30 anos). Quanto ao arranjo dos espaços envolventes, quase nada foi feito. E os realojamentos têm prosseguido em força nos últimos dez anos.
"Este conceito de cidade está hoje completamente posto de parte. A situação tornou-se ainda pior pela ocupação quase exclusiva por pessoas com problemas económicos e de inserção social, pelo que o plano deveria ser profundamente revisto", diz Margarida Sousa Lobo. Para mais, os realojamentos têm continuado. "Chelas tornou-se um local de peregrinação obrigatória de urbanistas e autarcas estrangeiros, que ficam espantados com o que vêem: 'Vocês estão a fazer isto agora, enquanto nós estamos a implodir os nossos blocos de habitação social'", reforça Nunes da Silva. Num artigo de 1999 publicado na revista "Sociedade e Território" sobre os programas de realojamento, o urbanista Fonseca Ferreira, actual presidente da Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo, escrevia: "Os bairros sociais construídos e em construção são, frequentemente, desastres urbanísticos e configuram novos espaços de exclusão. A sua demolição, na maior parte dos casos, será inevitável e médio prazo, à semelhança do que tem acontecido em diversos países europeus".
O plano dos anos 60 não foi revisto, mas a concepção da zona de serviços e comércio prevista desde o início foi alterada de acordo com o espírito dos tempos. Assim, está a surgir um grande complexo, constituído por quatro torres de 16 andares para habitação de segmento médio/alto, escritórios e um centro comercial Feira Nova, tudo suspenso sobre a Avenida Central de Chelas e envolvido por um anel rodoviário, com a estação de metro por baixo. Uma autêntica ilha fortificada de consumo e bem-estar rodeada de bairros sociais miseráveis.
Mais acima, numa rotunda na Avenida dos EUA, vão ser construídas as novas instalações do "Expresso" e de vários serviços da CML, como os arquivos municipais e a Hemeroteca, estando ainda prevista a deslocação para aí dos tribunais criminais. Tudo isto já fora do raio de alcance da estação da Bela Vista.
"A Câmara pretende requalificar a zona de Chelas, atraindo serviços de prestígio e habitantes de estratos sociais mais elevados", diz Margarida Magalhães, vereadora do Urbanismo da CML. O arquitecto Leonel Fadigas, presidente da Ambelis, a empresa municipal responsável pelo estudo prévio do centro de Chelas, de 1995, reconhece que o que está a ser feito não tem muito a ver com o previsto no estudo mas mostra-se moderadamente optimista, manifestando uma atitude de esperar para ver.
Mas há quem discorde violentamente: "Não é construindo bairros de ricos ao lado de bairros de pobres que se faz o reequilíbrio social", contrapõe Nunes da Silva, "mas sim com prédios de ricos, médios e pobres ao lado uns dos outros, e de preferência com os pobres em minoria. Foi assim que se fez em Alvalade e nos Olivais e resultou. Assim está-se a criar uma situação explosiva." E em Chelas há quem esteja apreensivo com os efeitos do Feira Nova sobre o pequeno comércio de bairro - quase os únicos espaços de convívio que aí existem.
Dos 5,5 milhões de contos que o consórcio Edifer/Alves Ribeiro/Feira Nova pagou pelo terreno, a Câmara recebe um pouco menos de 300 mil contos, sendo o restante pago com a construção do prolongamento da Av. dos Estados Unidos e do anel rodoviário - que vai servir, além do mais, o próprio acesso ao hipermercado. Quanto a Balsemão, o terreno para o "Expresso" (cujas actuais instalações não podem ser ampliadas por o edifício estar classificado) foi trocado pelas antigas instalações do jornal "A Capital", no Bairro Alto, onde se encontra agora instalado o grupo teatral Artistas Unidos, ficando a Sojornal obrigada a fazer obras no edifício no valor de cerca de 200 mil contos.
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Dez anos depois inaugurava-se a linha do Oriente. Por entre a euforia com a Expo'98 e a arquitectura das novas estações, quase ninguém se interrogou sobre o traçado da linha. E no entanto, quem foi lá cima ficou de novo estupefacto com a estação da Bela Vista, situada num descampado a meio da zona de Chelas.
Fomos tentar perceber a lógica de tudo isto. Não foi nada fácil: o Metropolitano de Lisboa - numa atitude de legalidade duvidosa, tratando-se duma empresa pública e concessionária dum serviço público - recusou-se dar-nos acesso a qualquer documentação interna, bem como a conceder-nos uma entrevista. Mas conseguimos perceber algumas coisas: as linhas do Colégio Militar e do Oriente são de facto tabu para a empresa; a expansão da rede foi, ao longo dos anos, fonte de conflitos entre a administração do metro e a tutela; e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) mantém uma relação ambígua com o Metropolitano: não estando representada na administração, acaba por ter uma influência determinante na definição da rede, conseguindo com que o metro avance por terrenos municipais em obediência a planos de urbanização que nem sempre consegue pôr em prática.
O ovo de Colombo
No princípio dos anos 80 decidiu-se pôr em prática um antigo plano que previa a construção dum Centro Administrativo, e o metro foi prolongado para os terrenos municipais em que ele seria construído. Quando a obra estava quase concluída, o plano foi abandonado, e a grande justificação passou a ser o interface do Colégio Militar. Entretanto, em 1987, a CML decidira ceder, em troca da construção das infraestruturas rodoviárias, um enorme lote de terreno mesmo ao lado desta estação para construção dum centro comercial. E dez longos anos e muitos percalços mais tarde o imponente Colombo era inaugurado.
Entretanto, as estações das Laranjeiras, para onde estava previsto o Luna Parque, e do Alto dos Moinhos, que esteve quase até à véspera da inauguração para se chamar Centro Administrativo, continuam quase às moscas.
A caminho do Oriente
No Plano de Urbanização de Chelas, de 1964, já estava prevista uma estação no chamado Centro de Chelas, que iria servir um grande complexo comercial e de serviços. No Plano Estratégico de Lisboa, de 1992, esta opção foi retomada.
José Manuel Viegas, catedrático de Transportes no Instituto Superior Técnico, foi o responsável pela elaboração do traçado: "A longo prazo, a linha da Expo seria a grande transversal oblíqua da rede de metro que cruzaria todas as outras e as ligava à estação do Oriente, o principal términus das linhas ferroviárias de longo curso. No curto prazo, houve uma preocupação de promover a coesão social em Chelas, evitando que esta zona se transformasse num gueto."
O projecto em curso no centro de Chelas consiste em quatro torres de 16 andares para habitação no segmento médio/alto, escritórios e um centro comercial Feira Nova, e é altamente controverso (ver texto ao lado). Mas o bairro camarário da Quinta do Armador, situado mesmo ao lado, não tem ainda uma saída de metro. O mesmo se passa com a mais populosa Quinta do Condado (a célebre Zona J). De qualquer modo, a grande dispersão geográfica e as novas ligações rodoviárias que entretanto quebraram o isolamento do bairro fazem prever que as duas estações de Chelas continuem a não ser muito utilizadas pelos seus habitantes, tal como acontece com a dos Olivais. E a estação do Oriente não cumpre a função para que foi pensada, e parece duvidoso que alguma vez o venha a fazer.
Os planos do Metro
Desde o princípio que as sucessivas administrações do Metro pensaram em dar prioridade ao alargamento da rede no centro da cidade. Em Janeiro de 1985 Pestana Bastos, então presidente da empresa, afirmava ao "Expresso", a propósito do prolongamento do Colégio Militar: "Foi tudo feito ao contrário". Em Outubro de 1992, o seu sucessor Consiglieri Pedroso resignava-se: "Dizem-nos para onde querem levar o metro, e nós estudamos tudo, dizemos como se faz e, se aprovarem, fazemos", afirmava ao "Público", ao mesmo tempo que revelava os seus planos para servir a Expo'98: a partir do Campo Grande, pelo Aeroporto, Olivais, Moscavide e Sacavém, com uma ligação por monorail ao recinto da exposição.
Nesse mesmo ano, o Metro e a STCP, juntamente com José Manuel Viegas, tinham constituído a TIS, que passa a elaborar os planos de expansão da rede, e em Abril de 1993 o ministro Ferreira do Amaral anuncia a construção da linha do Oriente com o actual traçado.
Uma questão de prioridades
Segundo um estudo de tráfego referente a Dezembro de 1999, várias estações da linha azul estão quase às moscas (Parque, Laranjeiras, Alto dos Moinhos e Carnide, todas com menos de 8 mil passageiros por dia). A linha do Oriente é um fracasso na generalidade - as estações de Olivais, Bela Vista e Cabo Ruivo registam valores ainda mais reduzidos, apesar dos cerca de 54 mil habitantes de Chelas e dos 100 mil dos Olivais.
O metro é uma infraestrutura muito cara - o plano de expansão da rede entre 1989 e 2000, que inclui as linhas da Baixa, a extensão à Pontinha e a linha do Oriente, foi orçamentado em 395,6 milhões de contos, e o último relatório e contas do Metropolitano de Lisboa, de 1998, revela um resultado líquido negativo de 15,682 milhões de contos. Segundo Fernando Nunes da Silva, urbanista e especialista em transportes do Instituto Superior Técnico, o valor a partir do qual se justifica o investimento no metro é de 10 mil passageiros por hora no período de ponta.
O que está em causa é a estratégia e as prioridades. "A primeira prioridade do metro deveria ter sido desenvolver os transportes públicos no centro da cidade, de modo a que constituíssem uma boa alternativa ao transporte individual", diz Margarida Sousa Lobo, urbanista e professora da Universidade Nova. "Não tem havido uma estratégia a longo prazo do Metropolitano de Lisboa", defende Nunes da Silva. "Houve decisões avulsas que talvez se expliquem pela promoção imobiliária, mas não certamente pelas necessidades imperiosas da cidade de Lisboa. O que tem acontecido é o Estado financiar linhas que beneficiam negócios privados, que ficam com esta infraestrutura de borla. A prioridade absoluta era a ligação ao rio e com os caminhos de ferro suburbanos, além da ligação entre as várias linha radiais e o serviço das zonas onde é mais difícil de assegurar o transporte rodoviário.". O seu colega José Manuel Viegas concorda na generalidade, mas acrescenta, pragmático: "A democracia tem os seus custos, e as razões do político nem sempre coincidem com a do técnico."
Ana Paula Vitorino, também urbanista do Técnico e ex-chefe de gabinete do secretário de Estado dos Transportes no primeiro governo de Guterres, deita água na fervura, lembrando que a construção de linhas na zona histórica de Lisboa é tecnicamente mais difícil e cara do que na zona alta, devido ao relevo acidentado, ao traçado das ruas - que não permite a construção a céu aberto - e ao estado precário de muitos edifícios - e aqui basta pensar em todos os percalços ocorridos nas linhas Baixa, como no Carmo e agora no Terreiro do Paço.
Uma solução?
A partir da nacionalização do Metro (que até aí pertencia à CML), em 1975, as decisões dos sucessivos governos e as pressões da CML sobrepuseram-se aos planos de várias administrações da empresa, sem que as responsabilidade possam ser claramente atribuídas, uma vez que estão diluídas entre a empresa, a CML e a tutela. Os prejuízos são cobertos, é claro, pelo Estado - ou seja, por todos nós.
"Quem vai explorar a rede deve participar na sua concepção e assumir os custos de exploração", defende Nunes da Silva. Ou seja, se as câmaras, por exemplo, assumissem os custos de exploração do metro não iriam pressionar a construção de linhas sem passageiros.
Ana Paula Vitorino é contra esta opção, afirmando que o Estado deve limitar-se a coordenar e construir as infraestruturas, entregando depois a exploração a privados e põe a tónica na necessidade duma autoridade metropolitana de transportes que assuma esse papel - necessidade com que todos os especialistas e transportadoras concordam.
Entretanto, a história repete-se: a ultraprioritária ligação entre a Alameda e S. Sebastião - a tal que justificava a opção da linha do Oriente - foi adiada a favor do prolongamento da linha da Pontinha para a Falagueira, na Amadora - cuja estação terminal fica, mais uma vez, num descampado. E o ministro do Equipamento acaba de anunciar a construção duma linha de monorail entre o Parque das Nações e o aeroporto.
Caixa
Uma experiência controversa
O bairro de Chelas teve uma infância atribulada que o marcou para sempre. Foi um dos últimos, na sequência de Alvalade e dos Olivais, duma série de bairros planeados de raiz e construídos graças às expropriações em massa feitas pelo célebre ministro das Obras Públicas do governo de Salazar e presidente da CML, Duarte Pacheco.
O bairro fora concebido, tal como os outros, para residência de pessoas de vários estratos - recorde-se que grande parte de Alvalade são bairros sociais, por estranho que isso nos pareça agora. As ocupações durante o Verão Quente de 1975 marcaram para sempre o destino de Chelas, e as políticas de realojamento que se seguiram ao longo dos anos mais não fizeram do que agravá-lo, tornando-o uma espécie de gueto isolado do resto da cidade. Os espaços verdes só recentemente têm vindo a ser concretizados, e o centro de comércio e serviços previsto começou agora a ser construído (o dos Olivais demorou 30 anos). Quanto ao arranjo dos espaços envolventes, quase nada foi feito. E os realojamentos têm prosseguido em força nos últimos dez anos.
"Este conceito de cidade está hoje completamente posto de parte. A situação tornou-se ainda pior pela ocupação quase exclusiva por pessoas com problemas económicos e de inserção social, pelo que o plano deveria ser profundamente revisto", diz Margarida Sousa Lobo. Para mais, os realojamentos têm continuado. "Chelas tornou-se um local de peregrinação obrigatória de urbanistas e autarcas estrangeiros, que ficam espantados com o que vêem: 'Vocês estão a fazer isto agora, enquanto nós estamos a implodir os nossos blocos de habitação social'", reforça Nunes da Silva. Num artigo de 1999 publicado na revista "Sociedade e Território" sobre os programas de realojamento, o urbanista Fonseca Ferreira, actual presidente da Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo, escrevia: "Os bairros sociais construídos e em construção são, frequentemente, desastres urbanísticos e configuram novos espaços de exclusão. A sua demolição, na maior parte dos casos, será inevitável e médio prazo, à semelhança do que tem acontecido em diversos países europeus".
O plano dos anos 60 não foi revisto, mas a concepção da zona de serviços e comércio prevista desde o início foi alterada de acordo com o espírito dos tempos. Assim, está a surgir um grande complexo, constituído por quatro torres de 16 andares para habitação de segmento médio/alto, escritórios e um centro comercial Feira Nova, tudo suspenso sobre a Avenida Central de Chelas e envolvido por um anel rodoviário, com a estação de metro por baixo. Uma autêntica ilha fortificada de consumo e bem-estar rodeada de bairros sociais miseráveis.
Mais acima, numa rotunda na Avenida dos EUA, vão ser construídas as novas instalações do "Expresso" e de vários serviços da CML, como os arquivos municipais e a Hemeroteca, estando ainda prevista a deslocação para aí dos tribunais criminais. Tudo isto já fora do raio de alcance da estação da Bela Vista.
"A Câmara pretende requalificar a zona de Chelas, atraindo serviços de prestígio e habitantes de estratos sociais mais elevados", diz Margarida Magalhães, vereadora do Urbanismo da CML. O arquitecto Leonel Fadigas, presidente da Ambelis, a empresa municipal responsável pelo estudo prévio do centro de Chelas, de 1995, reconhece que o que está a ser feito não tem muito a ver com o previsto no estudo mas mostra-se moderadamente optimista, manifestando uma atitude de esperar para ver.
Mas há quem discorde violentamente: "Não é construindo bairros de ricos ao lado de bairros de pobres que se faz o reequilíbrio social", contrapõe Nunes da Silva, "mas sim com prédios de ricos, médios e pobres ao lado uns dos outros, e de preferência com os pobres em minoria. Foi assim que se fez em Alvalade e nos Olivais e resultou. Assim está-se a criar uma situação explosiva." E em Chelas há quem esteja apreensivo com os efeitos do Feira Nova sobre o pequeno comércio de bairro - quase os únicos espaços de convívio que aí existem.
Dos 5,5 milhões de contos que o consórcio Edifer/Alves Ribeiro/Feira Nova pagou pelo terreno, a Câmara recebe um pouco menos de 300 mil contos, sendo o restante pago com a construção do prolongamento da Av. dos Estados Unidos e do anel rodoviário - que vai servir, além do mais, o próprio acesso ao hipermercado. Quanto a Balsemão, o terreno para o "Expresso" (cujas actuais instalações não podem ser ampliadas por o edifício estar classificado) foi trocado pelas antigas instalações do jornal "A Capital", no Bairro Alto, onde se encontra agora instalado o grupo teatral Artistas Unidos, ficando a Sojornal obrigada a fazer obras no edifício no valor de cerca de 200 mil contos.
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O estranho mundo dos diamantes (publicado no "Diário Económico")
O que é que o diamante tem? É a substância mais dura que existe na natureza, o que faz com que tenha inúmeras aplicações industriais. O imaginário colectivo representa-o como uma reluzente jóia lapidada de preço astronómico. É também um cristal de carbono, um dos elementos mais abundantes do Universo e constituinte essencial de todos os seres vivos conhecidos. Mas o senso comum diz-nos que a abundância de um bem é inversamente proporcional ao seu preço, logo os diamantes deveriam ser muito raros, apesar de serem primos da vulgaríssima grafite, outra forma cristalina do carbono a partir da qual são feitas as minas dos lápis e muitas outras coisas. De facto, o preço dos diamantes não se justifica pela sua raridade, mas antes pela insólita forma como são comercializados – uma combinação de monopólio com uma estratégia de marketing sem paralelo na história da humanidade.
Tudo começou na antiga colónia britânica da África do Sul com um senhor chamado Cecil Rhodes, um nome familiar para os portugueses. Rhodes foi um empresário mineiro e político, que esteve directamente envolvido na questão do Mapa Cor de Rosa, em 1890, que entre outras coisas deu origem ao actual hino nacional português e deu um enorme impulso aos republicanos que os levaria à revolução de 1910. A Rodésia, actual Zimbabwe, devia-lhe o seu nome.
Quando Cecil, filho de boas famílias inglesas, chega em 1870 à África do Sul para ajudar o irmão, agricultor na província do Natal, não o encontra – Herbert tinha desistido do algodão para se dedicar à prospecção mineira, acometido da febre do diamante que irrompera nesse mesmo ano. Cecil Rhodes acaba por se tornar dono da mina de Kimberley, a maior da África do Sul, compra todas as minas concorrentes, e paralelamente inicia uma carreira política fulgurante. Em 1891 é um político influentíssimo, ideólogo do imperialismo britânico, favorito da rainha Vitória e primeiro-ministro da colónia do Cabo. Através da sua empresa, a De Beers Consolidated Mines, controla 90 por cento da produção mundial de diamantes, o que lhe permite iniciar a estratégia até hoje seguida pela companhia: evitar que os diamantes percam o seu estatuto de pedra preciosa, mantendo as vendas num nível reduzido para evitar a descida dos preços.
Em 1921 inicia-se a dinastia Oppenheimer. Ernest assume o controlo da De Beers, e o monopólio vai-se consolidando. Mas o golpe de génio surge da crise, como tantas vezes acontece. Nos anos 1930 o preço dos diamantes desce, em consequência da Grande Depressão de 1929 e das convulsões que antecederam a II Guerra Mundial, abalando seriamente a confiança dos europeus. Em 1938, Harry Oppenheimer, filho de Ernest e seu sucessor, vai a Nova Iorque consultar uma das maiores agências de publicidade americanas, a NW Ayer, na tentativa de conseguir a recuperação dos preços nos Estados Unidos. O que se segue é uma campanha de publicidade invulgar, uma das maiores e mais bem sucedidas de todos os tempos, destinada a reforçar a tradição do anel de noivado e insistindo na conotação romântica do diamante – é caro, mas o amor não conhece limites. O nome do anunciante nunca é referido, uma vez que a posição monopolista da De Beers lhe permite dar-se a esse luxo. Em pleno apogeu do glamour de Hollywood, a NW Ayer aposta no novo meio de comunicação, oferecendo diamantes às estrelas de cinema, e fornece artigos sobre diamantes a jornais e revistas. Os resultados são fulminantes, e em 1941 as vendas tinham subido 50 por cento.
No início dos anos 60 o monopólio é ameaçado pela descoberta de diamantes na Sibéria, mas a De Beers não se atrapalha nem com a Guerra Fria e faz um acordo secreto com a União Soviética. Há apenas um pequeno problema: os diamantes siberianos são muito pequenos. Nova campanha de publicidade nos Estados Unidos, e inventa-se uma nova tradição, a do anel incrustado de pequenos diamantes oferecido à esposa no décimo aniversário do casamento.
Segue-se a conquista do mercado japonês, a partir de 1967. A De Beers consegue criar a tradição do anel de noivado, praticamente inexistente no Japão, e, em 1981, sessenta por cento das noivas nipónicas usam um anel de diamante.
Desde há mais de sessenta anos, a De Beers tem dedicado uma grande parte do seu orçamento a esta campanha subliminar, na imprensa, no cinema, na televisão (um exemplo recente foi a compra de um episódio da série Marés Vivas que gira à volta dum anel de noivado com um diamante), destinada a inculcar duas ideias: a de que um diamante é um bom investimento, pois o seu preço nunca desce; e por outro lado, a de que “é para sempre”, ou seja, nunca deve ser vendido – o que tem um efeito óbvio na manutenção da oferta, e além disso evita surpresas desagradáveis: estudos feitos em vários países por organizações de consumidores demonstram que é quase impossível um particular vender um diamante por um preço superior ao que deu por ele. Os comerciantes simplesmente recusam-se a comprá-los.
Hoje em dia, Nicky Oppenheimer, neto de Ernest, controla a esmagadora maioria do comércio mundial de diamantes em bruto e detém 50 por cento da produção. A lógica é implacável: os diamantes têm uma mística especial; essa mística só se pode manter se os preços forem elevados; e os preços só se podem manter elevados se a De Beers os controlar. Há uns anos, Austrália tentou lançar-se sozinha no comércio de diamantes. Acabou por desistir, apavorada com uma quebra de preços, e foi cair nos braços da De Beers. O processo monopolista é maravilhosamente simples: quando surgem concorrentes, compram-se-lhes os diamantes, venham eles de onde vierem; se os preços descem, reduz-se as vendas e aumenta-se os stocks; se sobem, aumenta-se as vendas e reduz-se os stocks. As vendas são feitas segundo um ritual arcaico, que dez vezes por ano reúne em Londres um punhado de compradores convidados, a quem são distribuídos lotes de diamantes em bruto por um preço fixado de antemão.
Só recentemente a companhia começou a enfrentar uma nova ameaça, e de novo há um nome envolvido que nos é familiar: a Unita. Não se sobrevive a mais de um século de monopólio sem uma grande dose de bom senso político – já demonstrado, por exemplo, nas excelentes relações que Harry Oppenheimer mantinha com Nelson Mandela. Confrontada com os efeitos na opinião pública americana das campanhas de ONGs, e da própria ONU, denunciando o comércio de diamantes como uma das causas da tragédia de África, a De Beers prepara-se para abandonar a estratégia secular: a companhia comprometeu-se a só comprar diamantes a governos “legítimos” (como o de Angola), e De Beers passará em breve a ser uma marca de diamantes, um produto de luxo garantidamente “blood-free”.
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Tudo começou na antiga colónia britânica da África do Sul com um senhor chamado Cecil Rhodes, um nome familiar para os portugueses. Rhodes foi um empresário mineiro e político, que esteve directamente envolvido na questão do Mapa Cor de Rosa, em 1890, que entre outras coisas deu origem ao actual hino nacional português e deu um enorme impulso aos republicanos que os levaria à revolução de 1910. A Rodésia, actual Zimbabwe, devia-lhe o seu nome.
Quando Cecil, filho de boas famílias inglesas, chega em 1870 à África do Sul para ajudar o irmão, agricultor na província do Natal, não o encontra – Herbert tinha desistido do algodão para se dedicar à prospecção mineira, acometido da febre do diamante que irrompera nesse mesmo ano. Cecil Rhodes acaba por se tornar dono da mina de Kimberley, a maior da África do Sul, compra todas as minas concorrentes, e paralelamente inicia uma carreira política fulgurante. Em 1891 é um político influentíssimo, ideólogo do imperialismo britânico, favorito da rainha Vitória e primeiro-ministro da colónia do Cabo. Através da sua empresa, a De Beers Consolidated Mines, controla 90 por cento da produção mundial de diamantes, o que lhe permite iniciar a estratégia até hoje seguida pela companhia: evitar que os diamantes percam o seu estatuto de pedra preciosa, mantendo as vendas num nível reduzido para evitar a descida dos preços.
Em 1921 inicia-se a dinastia Oppenheimer. Ernest assume o controlo da De Beers, e o monopólio vai-se consolidando. Mas o golpe de génio surge da crise, como tantas vezes acontece. Nos anos 1930 o preço dos diamantes desce, em consequência da Grande Depressão de 1929 e das convulsões que antecederam a II Guerra Mundial, abalando seriamente a confiança dos europeus. Em 1938, Harry Oppenheimer, filho de Ernest e seu sucessor, vai a Nova Iorque consultar uma das maiores agências de publicidade americanas, a NW Ayer, na tentativa de conseguir a recuperação dos preços nos Estados Unidos. O que se segue é uma campanha de publicidade invulgar, uma das maiores e mais bem sucedidas de todos os tempos, destinada a reforçar a tradição do anel de noivado e insistindo na conotação romântica do diamante – é caro, mas o amor não conhece limites. O nome do anunciante nunca é referido, uma vez que a posição monopolista da De Beers lhe permite dar-se a esse luxo. Em pleno apogeu do glamour de Hollywood, a NW Ayer aposta no novo meio de comunicação, oferecendo diamantes às estrelas de cinema, e fornece artigos sobre diamantes a jornais e revistas. Os resultados são fulminantes, e em 1941 as vendas tinham subido 50 por cento.
No início dos anos 60 o monopólio é ameaçado pela descoberta de diamantes na Sibéria, mas a De Beers não se atrapalha nem com a Guerra Fria e faz um acordo secreto com a União Soviética. Há apenas um pequeno problema: os diamantes siberianos são muito pequenos. Nova campanha de publicidade nos Estados Unidos, e inventa-se uma nova tradição, a do anel incrustado de pequenos diamantes oferecido à esposa no décimo aniversário do casamento.
Segue-se a conquista do mercado japonês, a partir de 1967. A De Beers consegue criar a tradição do anel de noivado, praticamente inexistente no Japão, e, em 1981, sessenta por cento das noivas nipónicas usam um anel de diamante.
Desde há mais de sessenta anos, a De Beers tem dedicado uma grande parte do seu orçamento a esta campanha subliminar, na imprensa, no cinema, na televisão (um exemplo recente foi a compra de um episódio da série Marés Vivas que gira à volta dum anel de noivado com um diamante), destinada a inculcar duas ideias: a de que um diamante é um bom investimento, pois o seu preço nunca desce; e por outro lado, a de que “é para sempre”, ou seja, nunca deve ser vendido – o que tem um efeito óbvio na manutenção da oferta, e além disso evita surpresas desagradáveis: estudos feitos em vários países por organizações de consumidores demonstram que é quase impossível um particular vender um diamante por um preço superior ao que deu por ele. Os comerciantes simplesmente recusam-se a comprá-los.
Hoje em dia, Nicky Oppenheimer, neto de Ernest, controla a esmagadora maioria do comércio mundial de diamantes em bruto e detém 50 por cento da produção. A lógica é implacável: os diamantes têm uma mística especial; essa mística só se pode manter se os preços forem elevados; e os preços só se podem manter elevados se a De Beers os controlar. Há uns anos, Austrália tentou lançar-se sozinha no comércio de diamantes. Acabou por desistir, apavorada com uma quebra de preços, e foi cair nos braços da De Beers. O processo monopolista é maravilhosamente simples: quando surgem concorrentes, compram-se-lhes os diamantes, venham eles de onde vierem; se os preços descem, reduz-se as vendas e aumenta-se os stocks; se sobem, aumenta-se as vendas e reduz-se os stocks. As vendas são feitas segundo um ritual arcaico, que dez vezes por ano reúne em Londres um punhado de compradores convidados, a quem são distribuídos lotes de diamantes em bruto por um preço fixado de antemão.
Só recentemente a companhia começou a enfrentar uma nova ameaça, e de novo há um nome envolvido que nos é familiar: a Unita. Não se sobrevive a mais de um século de monopólio sem uma grande dose de bom senso político – já demonstrado, por exemplo, nas excelentes relações que Harry Oppenheimer mantinha com Nelson Mandela. Confrontada com os efeitos na opinião pública americana das campanhas de ONGs, e da própria ONU, denunciando o comércio de diamantes como uma das causas da tragédia de África, a De Beers prepara-se para abandonar a estratégia secular: a companhia comprometeu-se a só comprar diamantes a governos “legítimos” (como o de Angola), e De Beers passará em breve a ser uma marca de diamantes, um produto de luxo garantidamente “blood-free”.
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A bela portuguesa (publicado no "Diário Económico")
Deve ser raro o português, ou mesmo o estrangeiro de visita, que nunca se sentou nelas, numa qualquer esplanada de um bar. É um clássico do design, um daqueles objectos que se integraram tão bem no nosso quotidiano que quase não damos por eles a não ser quando lhes sentimos a falta. Quase tão simples como um clip, são apenas quatro peças. Um tubo desenha o arco das costas, prolonga-se em braços e curva bruscamente, num ângulo obtuso que o transforma em duas pernas traseiras; outro tubo contorna o assento, ligeiramente inclinado para trás, e desce em ângulo recto até ao chão. Uma chapa curva une os dois tubos e forma a superfície das costas; outra chapa preenche o lugar do assento, curvando-se um pouco à frente. Os dois tubos são soldados por outros dois mais pequenos à altura do assento. Temos uma cadeira, confortável, sólida, resistente e funcional como poucas. Bela e simples, mas sofisticada: o ângulo invulgar das pernas e a inclinação do assento torna-a um pouco aérea, aparentemente instável - uma certa ilusão de que quem nela se senta está suspenso. O tubo curvado dá-lhe outra virtude: não tem arestas.
Sempre em ferro pintado, fabricam-se em todas as cores. Durante os anos 80 quase desapareciam, substituídas pelas infames e baratuchas cadeiras de plástico branco que quase se derretem com o calor no Verão das nossas esplanadas, até que uma série de felizes coincidências as revitalizou. O local de uma delas é o Centro Cultural de Belém, onde ela aparece, como tantas vezes acontece em Portugal, depois de uma volta pelo estrangeiro. Santos da casa não fazem milagres, e também a nossa cadeira precisou de consagração internacional, mais precisamente na grande potência do design contemporâneo que é a Itália.
Acontece que a "Domus", uma prestigiada revista italiana de design, publicou nos inícios dos anos 90 um elogioso artigo sobre a cadeira portuguesa de esplanada, com o CCB em plena construção. Como o espírito dos arquitectos do CCB, Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, era o de uma reinterpretação moderna da arquitectura monumental portuguesa, a equipa do Atelier Daciano Costa, responsável pela concepção e selecção do mobiliário do CCB pensou que a cadeira - um clássico modernista bem português - era perfeita para as esplanadas do centro. A encomenda foi feita a um fabricante de Aveiro, a Adico.
Em simultâneo, a Câmara Municipal de Lisboa dá mais uma ajuda. Numa iniciativa contra o desaparecimento e degradação das esplanadas da capital, toma a iniciativa de promover novas esplanadas. Por um lado, proíbe a utilização de cadeiras de plástico e, por outro, obriga os comerciantes a adoptarem, nomeadamente na Baixa, a cadeira portuguesa, indo ao ponto de prescrever determinadas cores conforme as zonas.
Pela mesma altura, o designer Sena da Silva, um dos patriarcas do design em Portugal juntamente com Daciano Costa, interessa-se pela cadeira e contacta um fabricante, a Arcalo, de Algés. Deste contacto nasce em 1992 um artigo nos "Cadernos de Design", uma publicação do Centro Português de Design, de que Sena da Silva era na altura presidente. A cadeira tem honras de capa com uma bela fotografia a cores, e o artigo no interior traça-lhe a história, dá-lhe um pai e baptiza-a com o nome do progenitor: cadeira "Gonçalo", o serralheiro da Arcalo que, nos anos 50, terá criado a cadeira a partir dum modelo anterior, também de sua autoria.
Mas a questão não é pacífica, e João Paulo Martins, arquitecto, professor e colaborador do Atelier Daciano Costa, mostra-se céptico: tanto quanto se sabe, os móveis tubulares aparecem em Portugal por volta dos anos 30, em cafés e hospitais. Um exemplo destes primeiros modelos, de 1935, pode ser visto ainda no Café Nicola, no Rossio de Lisboa. A inspiração viria da Alemanha e da famosa Bauhaus, onde Marcel Breuer desenhou nos anos 20 uma das mais célebres cadeiras do século XX, feita em tubo de aço. Quanto à nossa cadeira, são notórias as semelhanças na estrutura com uma outra cadeira tubular, desta vez francesa e desenhada por outra celebridade, René Herbst, em 1928. Só que esta era uma cadeira de interior, estofada. O material histórico que consultou não é concludente quanto à época precisa em que a cadeira portuguesa apareceu, mas parece ter-se vulgarizado nos anos 50, um pouco anacronicamente, quando no resto da Europa o mobiliário tubular já tinha passado de moda.
Em meados dos anos 90 a Arcalo acaba por registar o modelo, com o nome de Cadeira Gonçalo. Mas o rival aveirense contesta: "Quando a criança é bela todos lhe querem ser o pai", dizem os responsáveis da Adico, e afirmam que ainda a Arcalo não era nascida já eles a produziam, assim como muitas outras fábricas: nos catálogos da fábrica de Aveiro chama-se simplesmente "Cadeira Portuguesa".
Seja como for, não é por acaso que a cadeira que perdurou até hoje: é sem dúvida uma obra-prima, possivelmente anónima como outras obras-primas do design. Paulo Parra, designer e também professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, concorda: é um objecto perfeito, só possível de melhorar substituindo o ferro pelo alumínio, mais caro, mas mais leve e duradouro. O que está para acontecer em breve, e teremos então uma bela portuguesa ainda mais perfeita.
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Cadeira Gonçalo, Arcalo, 1992
Sempre em ferro pintado, fabricam-se em todas as cores. Durante os anos 80 quase desapareciam, substituídas pelas infames e baratuchas cadeiras de plástico branco que quase se derretem com o calor no Verão das nossas esplanadas, até que uma série de felizes coincidências as revitalizou. O local de uma delas é o Centro Cultural de Belém, onde ela aparece, como tantas vezes acontece em Portugal, depois de uma volta pelo estrangeiro. Santos da casa não fazem milagres, e também a nossa cadeira precisou de consagração internacional, mais precisamente na grande potência do design contemporâneo que é a Itália.
Acontece que a "Domus", uma prestigiada revista italiana de design, publicou nos inícios dos anos 90 um elogioso artigo sobre a cadeira portuguesa de esplanada, com o CCB em plena construção. Como o espírito dos arquitectos do CCB, Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, era o de uma reinterpretação moderna da arquitectura monumental portuguesa, a equipa do Atelier Daciano Costa, responsável pela concepção e selecção do mobiliário do CCB pensou que a cadeira - um clássico modernista bem português - era perfeita para as esplanadas do centro. A encomenda foi feita a um fabricante de Aveiro, a Adico.
Em simultâneo, a Câmara Municipal de Lisboa dá mais uma ajuda. Numa iniciativa contra o desaparecimento e degradação das esplanadas da capital, toma a iniciativa de promover novas esplanadas. Por um lado, proíbe a utilização de cadeiras de plástico e, por outro, obriga os comerciantes a adoptarem, nomeadamente na Baixa, a cadeira portuguesa, indo ao ponto de prescrever determinadas cores conforme as zonas.
Pela mesma altura, o designer Sena da Silva, um dos patriarcas do design em Portugal juntamente com Daciano Costa, interessa-se pela cadeira e contacta um fabricante, a Arcalo, de Algés. Deste contacto nasce em 1992 um artigo nos "Cadernos de Design", uma publicação do Centro Português de Design, de que Sena da Silva era na altura presidente. A cadeira tem honras de capa com uma bela fotografia a cores, e o artigo no interior traça-lhe a história, dá-lhe um pai e baptiza-a com o nome do progenitor: cadeira "Gonçalo", o serralheiro da Arcalo que, nos anos 50, terá criado a cadeira a partir dum modelo anterior, também de sua autoria.

Cadeira, René Herbst, 1928
Mas a questão não é pacífica, e João Paulo Martins, arquitecto, professor e colaborador do Atelier Daciano Costa, mostra-se céptico: tanto quanto se sabe, os móveis tubulares aparecem em Portugal por volta dos anos 30, em cafés e hospitais. Um exemplo destes primeiros modelos, de 1935, pode ser visto ainda no Café Nicola, no Rossio de Lisboa. A inspiração viria da Alemanha e da famosa Bauhaus, onde Marcel Breuer desenhou nos anos 20 uma das mais célebres cadeiras do século XX, feita em tubo de aço. Quanto à nossa cadeira, são notórias as semelhanças na estrutura com uma outra cadeira tubular, desta vez francesa e desenhada por outra celebridade, René Herbst, em 1928. Só que esta era uma cadeira de interior, estofada. O material histórico que consultou não é concludente quanto à época precisa em que a cadeira portuguesa apareceu, mas parece ter-se vulgarizado nos anos 50, um pouco anacronicamente, quando no resto da Europa o mobiliário tubular já tinha passado de moda.
Em meados dos anos 90 a Arcalo acaba por registar o modelo, com o nome de Cadeira Gonçalo. Mas o rival aveirense contesta: "Quando a criança é bela todos lhe querem ser o pai", dizem os responsáveis da Adico, e afirmam que ainda a Arcalo não era nascida já eles a produziam, assim como muitas outras fábricas: nos catálogos da fábrica de Aveiro chama-se simplesmente "Cadeira Portuguesa".
Seja como for, não é por acaso que a cadeira que perdurou até hoje: é sem dúvida uma obra-prima, possivelmente anónima como outras obras-primas do design. Paulo Parra, designer e também professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, concorda: é um objecto perfeito, só possível de melhorar substituindo o ferro pelo alumínio, mais caro, mas mais leve e duradouro. O que está para acontecer em breve, e teremos então uma bela portuguesa ainda mais perfeita.
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Olaias (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado)
Enquanto que a norma nos bairros sociais é a construção em altura, aqui as coisas mudam ironicamente: à beira dos enormes blocos de apartamentos da classe média assinados Tomás Taveira, os discretos prédios de seis pisos do bairro social parecem minúsculos. Mais uma aposta no regresso ao urbanismo tradicional dos quarteirões, tal como nas últimas fases dos bairros dos Alfinetes e Marquês de Abrantes – blocos com comércio no piso térreo, dispostos em U ou em L, neste caso com a excepção dos seis prédios em V da primeira fase. Virada para a rotunda das Olaias, uma passagem por baixo do bico do V – muito bonito, diga-se de passagem, com as suas varandas triangulares ligadas por uma coluna – dá acesso ao espaço interior do bairro.
Estes 63 fogos serviram para realojar, entre 1996 e 1997, parte dos habitantes do bairro de lata do Monte Coxo, que ficava ali perto, entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Américo Durão. Neste terreno devoluto, propriedade da CML há várias décadas, foi aparecendo ao longo da segunda metade dos anos 1960 uma mancha de barracas e casas de alvenaria construídas por pessoas que tinham sido desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira travessia do Tejo em Lisboa. O bairro foi aumentando com os desalojados pela construção da Avenida Afonso Costa, e ainda com a chegada de cabo-verdianos e ciganos. A mistura étnica contribuía para os conflitos, e os problemas subsistiram, tanto no bairro das Olaias como nos Alfinetes, onde foi realojada maior parte dos restantes moradores do Monte Coxo.
Os restantes realojados desta primeira fase vieram dum bairro conhecido como o Comboio das Olaias, que ficava entre o Monte Coxo e a rotunda das Olaias, mesmo ao pé do novo bairro. Era um conjunto de casas pré-fabricadas construídas pela CML em 1982 para realojar famílias cabo-verdianas que tinham ocupado um barracão da Companhia Portugal e Colónias, em Xabregas, logo a seguir ao 25 de Abril.
Nos prédios da segunda fase deste bairro social, separados dos da primeira fase pelos blocos degradados da Cooperativa Portugal Novo, habitados maioritariamente por ciganos, foi realojada, além de algumas famílias do Monte Coxo, uma parte dos habitantes dos antigos bairros de lata da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos, ambos nas imediações do Areeiro, e ainda algumas famílias da Quinta dos Embrechados. Grande parte da população da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos eram pessoas de origem indiana, quase todas oriundas da mesma aldeia perto da cidade de Diu, de onde passaram para Moçambique e finalmente para Portugal. Pertencentes à mesma casta de pedreiros, formam uma comunidade de religião hindu muito coesa, pacífica e organizada e muito fiel às suas tradições, apesar de em muitos casos estarem separados da Índia por mais de três gerações – são já netos dos que emigraram para África. Nas suas novas casas as imagens de Lakshmi, a esposa de Vishnu, com os seus quatro braços representando a prosperidade, a pureza, a castidade e a generosidade, coexistem com as de Nossa Senhora, numa manifestação típica desta religião que aceita todas as outras como manifestação do mesmo espírito divino, e nos pátios entre os prédios podem ver-se as suas árvores sagradas, que fizeram questão de plantar.
No conjunto, as Olaias são um pequeno bairro multiétnico, em que a principal preocupação dos técnicos da Gebalis vai para as relações nem sempre fáceis entre cabo-verdianos, portugueses, indianos e ciganos. Tal como noutros bairros que foram entregues à gestão da empresa, foram feitos melhoramentos para evitar a futura degradação dos edifícios, nomeadamente o fecho das escadas.
João Nascimento Costa e Quinta do Lavrado
Ao chegarmos ao fim da rua João Nascimento Costa, do lado direito, vemos os novos prédios de habitação social, um conjunto que fecha pelo lado sudoeste o pequeno planalto da Picheleira. São oito blocos iguais de sete pisos com 136 fogos, pintados de ocre e cinzento, e ainda um outro amarelo com mais um piso, que remata o conjunto. Os pisos térreos ficam para o comércio, fazendo com que este pedaço de rua passe a concentrar a grande maioria das lojas da rua. Do lado oposto ficam os acessos para o estacionamento subterrâneo, com 127 lugares.
Quanto à Quinta do Lavrado, é uma grande urbanização de 12 edifícios com 263 fogos, construída mesmo ao lado da antiga Curraleira, por detrás do cemitério do Alto de S. João. Seis prédios paralelos à nova via em construção que vai desembocar na rotunda das Olaias e outros seis perpendiculares a estes formam dois grandes M em que o espaço entre as pernas das letras é ocupado por grandes pátios elevados sobre a rua e virados para a colina da Picheleira, a nordeste. De todas as urbanizações geridas pela Gebalis, esta é que tem a toponímia mais esotérica: Via B2, RTB9, lotes 1 a 12.
A Curraleira
A história do bairro de lata mais mediático dos últimos tempos, logo a seguir ao Casal Ventoso, foi-nos contada por Virgílio Pires Lopes, presidente da Junta de Freguesia de S. João e morador na zona há mais de sessenta anos.
Toda a encosta entre o Alto de S. João e o Alto do Pina era até há poucas décadas ocupada por várias propriedades rurais: as quintas da Curraleira, do Pinheiro, da Argilinha, do Cid, da Corte Larga, entre outras. O surto de industrialização da cidade de Lisboa em finais do século XIX atraiu uma vaga migratória de camponeses, vindos sobretudo das Beiras e Trás-os-Montes, que se foram instalando na periferia destas quintas. Mais tarde, tal como noutros locais da cidade, foram os próprios industriais a criarem bairros para os seus operários. Ainda hoje existem na zona, sobretudo nas ruas Barão de Sabrosa, António Luís Inácio e Sabino de Sousa, perto de 40 pátios e vilas que testemunham esta migração, como os pátios do Mansinho e da Dona Cândida ou as vilas Adelaide, Palmira e Alegre. Recorde-se que o limite oficial da cidade de Lisboa foi definido em meados do século XIX por uma estrada de circunvalação que contornava a cidade desde Alcântara até à Cruz da Pedra, perto de Santa Apolónia, passando pela actual Rua Morais Soares, ao longo da qual uma série de barreiras alfandegárias fiscalizam os impostos sobre os produtos alimentares que entravam na cidade.
Os operários que moravam nas vilas e nos pátios acumulavam o trabalho nas fábricas com o cultivo de hortaliças nas antigas quintas. Com o tempo aí foram surgindo barracões para guardar utensílios agrícolas, e mais tarde casas de habitação. Em alguns casos os camponeses nunca deixaram de sê-lo, trocando simplesmente as terras da sua aldeia por estas na então periferia da cidade. Ainda hoje há residentes na freguesia, já septuagenários, que nasceram nessas quintas, filhos de camponeses vindos da região da Pampilhosa da Serra, e algumas parcelas de terreno ainda lhes pertencem.
Por alturas do final da II Guerra Mundial chegou uma nova vaga de moradores, vindos da Quinta das Comendadeiras, onde hoje fica a Escola Patrício Prazeres, por cima do Convento de Santos-o-Novo, de onde tinham sido desalojados por um incêndio. O bairro continuou a crescer com ajuda de africanos das ex-colónias e ciganos, até que os seus cerca de 4000 habitantes ocuparam todo o espaço dantes cultivado. Nos últimos 15 anos o tráfico de heroína tinha aos poucos dominado a Curraleira, atraindo toda uma população de toxicodependentes que foi permanecendo em toda a área da freguesia de S. João, sobretudo após o final do Casal Ventoso.
E agora?
A população da Curraleira, o último grande bairro de lata de Lisboa, foi realojada em 2001 nestes dois bairros, e ainda na última fase do bairro dos Alfinetes, em Chelas. É natural a expectativa quanto ao que irá acontecer neste realojamento massivo duma população pouco escolarizada, com muitas famílias monoparentais, graves problemas de toxicodependência e dificuldades de inserção social. O apoio institucional de que muitas pessoas dependem nem sempre parece ser uma solução.
Quando passamos no bairro Nascimento Costa, as técnicas da Gebalis Paula Coelho e Paula Pina descobrem um grande espaço destinado a um equipamento social arrombado e ocupado por toxicodependentes. Aqui, mais uma vez, a grande preocupação é a manutenção dos espaços comuns dos prédios, que sem um uso definido correm o risco de se degradarem. É o caso das grandes varandas comuns debruçadas sobre a grande via em construção lá em baixo.
Na Quinta do Lavrado a situação repete-se. Desta vez o problema são os grandes pátios abertos entre os prédios. São espaços potencialmente agradáveis mas, mais uma vez, a ausência de um uso definido – nem sequer bancos têm – torna-os numa terra de ninguém em risco de degradação rápida.
Carlos Botelho
O bairro Carlos Botelho fica na rua do mesmo nome, do lado oposto à Rua João Nascimento Costa e, tal como o bairro construído nesta última rua, está perfeitamente integrado na malha urbana da cidade, onde ocupou um espaço no limite natural da Picheleira. É um conjunto de 20 prédios brancos de quatro e seis pisos, dispostos perpendicularmente entre si, com 271 fogos que serviram para realojar dos habitantes de dois bairros de lata ali existentes, a Quinta dos Embrechados e o Casal do Pinto, e ainda algumas famílias da Curraleira.
A Quinta dos Embrechados
A actual urbanização foi construída no sítio onde ficava a Quinta dos Embrechados, uma propriedade rural expropriada pela CML nos anos 1930 para a construção duma avenida que nunca apareceu, e que, tal como aconteceu noutros casos semelhantes, foi sendo ocupada por pessoas que cultivavam as hortas à volta das suas casas. Em 1974 juntaram-se às vinte e tal famílias que ali viviam outras tantas, que ocuparam o antigo solar da quinta e acabaram por formar uma cooperativa integrada no SAAL, um projecto de realojamento que teve os seus anos de glória nos anos a seguir ao 25 de Abril. Mas coisas não correram totalmente bem – apenas uma parte dos habitantes dos Embrechados conseguiriam lugar nas casas construídas pela cooperativa. Os restantes foram realojados na Flamenga e nas Olaias quando uma parte do bairro de lata foi demolida para a construção da primeira fase da urbanização, em 1997, e os outros acabaram por ser realojados dois anos depois no local onde já moravam.
O Casal do Pinto
Separado da Quinta dos Embrechados por um pequeno vale, o Casal do Pinto era um bairro muito diferente. A ocupação terá começado nos anos 1940, com famílias oriundas na sua maioria das regiões de Lamego e Viseu. Quando começou a ser demolido, em 1999, moravam lá 337 famílias, na sua maioria socialmente integradas, incluindo trabalhadores de empresas como a PT, os CTT e a TAP, bancários e empregados da hotelaria e comércio. Além de um jardim de infância, havia o Clube Real Olímpico da Picheleira, onde os moradores podiam praticar ténis de mesa, futebol e atletismo, além de ser o grande local de convívio do bairro. A maioria dos habitantes do Casal do Pinto foram realojados no bairro Carlos Botelho, onde coabitam com os seus rivais dos Embrechados, e os restantes no bairro do Armador e nas Olaias.
Três populações rivais
O convívio entre os habitantes oriundos dos três bairros de lata não tem sido fácil, conta-nos Paula Coelho, coordenadora do Gabinete das Olaias, responsável pela manutenção destes edifícios. As pessoas do Embrechados, muitos delas de etnia cigana, são mal vistas pelas do Casal do Pinto, maioritárias, e a chegada das famílias da muito mal afamada Curraleira acabou por unir as outras duas populações contra elas. Apesar disso, dos quatro bairros geridos pelo Gabinete das Olaias, este parece ser o que suscita menos preocupações aos técnicos da Gebalis.
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Estes 63 fogos serviram para realojar, entre 1996 e 1997, parte dos habitantes do bairro de lata do Monte Coxo, que ficava ali perto, entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Américo Durão. Neste terreno devoluto, propriedade da CML há várias décadas, foi aparecendo ao longo da segunda metade dos anos 1960 uma mancha de barracas e casas de alvenaria construídas por pessoas que tinham sido desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira travessia do Tejo em Lisboa. O bairro foi aumentando com os desalojados pela construção da Avenida Afonso Costa, e ainda com a chegada de cabo-verdianos e ciganos. A mistura étnica contribuía para os conflitos, e os problemas subsistiram, tanto no bairro das Olaias como nos Alfinetes, onde foi realojada maior parte dos restantes moradores do Monte Coxo.
Os restantes realojados desta primeira fase vieram dum bairro conhecido como o Comboio das Olaias, que ficava entre o Monte Coxo e a rotunda das Olaias, mesmo ao pé do novo bairro. Era um conjunto de casas pré-fabricadas construídas pela CML em 1982 para realojar famílias cabo-verdianas que tinham ocupado um barracão da Companhia Portugal e Colónias, em Xabregas, logo a seguir ao 25 de Abril.
Nos prédios da segunda fase deste bairro social, separados dos da primeira fase pelos blocos degradados da Cooperativa Portugal Novo, habitados maioritariamente por ciganos, foi realojada, além de algumas famílias do Monte Coxo, uma parte dos habitantes dos antigos bairros de lata da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos, ambos nas imediações do Areeiro, e ainda algumas famílias da Quinta dos Embrechados. Grande parte da população da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos eram pessoas de origem indiana, quase todas oriundas da mesma aldeia perto da cidade de Diu, de onde passaram para Moçambique e finalmente para Portugal. Pertencentes à mesma casta de pedreiros, formam uma comunidade de religião hindu muito coesa, pacífica e organizada e muito fiel às suas tradições, apesar de em muitos casos estarem separados da Índia por mais de três gerações – são já netos dos que emigraram para África. Nas suas novas casas as imagens de Lakshmi, a esposa de Vishnu, com os seus quatro braços representando a prosperidade, a pureza, a castidade e a generosidade, coexistem com as de Nossa Senhora, numa manifestação típica desta religião que aceita todas as outras como manifestação do mesmo espírito divino, e nos pátios entre os prédios podem ver-se as suas árvores sagradas, que fizeram questão de plantar.
No conjunto, as Olaias são um pequeno bairro multiétnico, em que a principal preocupação dos técnicos da Gebalis vai para as relações nem sempre fáceis entre cabo-verdianos, portugueses, indianos e ciganos. Tal como noutros bairros que foram entregues à gestão da empresa, foram feitos melhoramentos para evitar a futura degradação dos edifícios, nomeadamente o fecho das escadas.
João Nascimento Costa e Quinta do Lavrado
Ao chegarmos ao fim da rua João Nascimento Costa, do lado direito, vemos os novos prédios de habitação social, um conjunto que fecha pelo lado sudoeste o pequeno planalto da Picheleira. São oito blocos iguais de sete pisos com 136 fogos, pintados de ocre e cinzento, e ainda um outro amarelo com mais um piso, que remata o conjunto. Os pisos térreos ficam para o comércio, fazendo com que este pedaço de rua passe a concentrar a grande maioria das lojas da rua. Do lado oposto ficam os acessos para o estacionamento subterrâneo, com 127 lugares.
Quanto à Quinta do Lavrado, é uma grande urbanização de 12 edifícios com 263 fogos, construída mesmo ao lado da antiga Curraleira, por detrás do cemitério do Alto de S. João. Seis prédios paralelos à nova via em construção que vai desembocar na rotunda das Olaias e outros seis perpendiculares a estes formam dois grandes M em que o espaço entre as pernas das letras é ocupado por grandes pátios elevados sobre a rua e virados para a colina da Picheleira, a nordeste. De todas as urbanizações geridas pela Gebalis, esta é que tem a toponímia mais esotérica: Via B2, RTB9, lotes 1 a 12.
A Curraleira
A história do bairro de lata mais mediático dos últimos tempos, logo a seguir ao Casal Ventoso, foi-nos contada por Virgílio Pires Lopes, presidente da Junta de Freguesia de S. João e morador na zona há mais de sessenta anos.
Toda a encosta entre o Alto de S. João e o Alto do Pina era até há poucas décadas ocupada por várias propriedades rurais: as quintas da Curraleira, do Pinheiro, da Argilinha, do Cid, da Corte Larga, entre outras. O surto de industrialização da cidade de Lisboa em finais do século XIX atraiu uma vaga migratória de camponeses, vindos sobretudo das Beiras e Trás-os-Montes, que se foram instalando na periferia destas quintas. Mais tarde, tal como noutros locais da cidade, foram os próprios industriais a criarem bairros para os seus operários. Ainda hoje existem na zona, sobretudo nas ruas Barão de Sabrosa, António Luís Inácio e Sabino de Sousa, perto de 40 pátios e vilas que testemunham esta migração, como os pátios do Mansinho e da Dona Cândida ou as vilas Adelaide, Palmira e Alegre. Recorde-se que o limite oficial da cidade de Lisboa foi definido em meados do século XIX por uma estrada de circunvalação que contornava a cidade desde Alcântara até à Cruz da Pedra, perto de Santa Apolónia, passando pela actual Rua Morais Soares, ao longo da qual uma série de barreiras alfandegárias fiscalizam os impostos sobre os produtos alimentares que entravam na cidade.
Os operários que moravam nas vilas e nos pátios acumulavam o trabalho nas fábricas com o cultivo de hortaliças nas antigas quintas. Com o tempo aí foram surgindo barracões para guardar utensílios agrícolas, e mais tarde casas de habitação. Em alguns casos os camponeses nunca deixaram de sê-lo, trocando simplesmente as terras da sua aldeia por estas na então periferia da cidade. Ainda hoje há residentes na freguesia, já septuagenários, que nasceram nessas quintas, filhos de camponeses vindos da região da Pampilhosa da Serra, e algumas parcelas de terreno ainda lhes pertencem.
Por alturas do final da II Guerra Mundial chegou uma nova vaga de moradores, vindos da Quinta das Comendadeiras, onde hoje fica a Escola Patrício Prazeres, por cima do Convento de Santos-o-Novo, de onde tinham sido desalojados por um incêndio. O bairro continuou a crescer com ajuda de africanos das ex-colónias e ciganos, até que os seus cerca de 4000 habitantes ocuparam todo o espaço dantes cultivado. Nos últimos 15 anos o tráfico de heroína tinha aos poucos dominado a Curraleira, atraindo toda uma população de toxicodependentes que foi permanecendo em toda a área da freguesia de S. João, sobretudo após o final do Casal Ventoso.
E agora?
A população da Curraleira, o último grande bairro de lata de Lisboa, foi realojada em 2001 nestes dois bairros, e ainda na última fase do bairro dos Alfinetes, em Chelas. É natural a expectativa quanto ao que irá acontecer neste realojamento massivo duma população pouco escolarizada, com muitas famílias monoparentais, graves problemas de toxicodependência e dificuldades de inserção social. O apoio institucional de que muitas pessoas dependem nem sempre parece ser uma solução.
Quando passamos no bairro Nascimento Costa, as técnicas da Gebalis Paula Coelho e Paula Pina descobrem um grande espaço destinado a um equipamento social arrombado e ocupado por toxicodependentes. Aqui, mais uma vez, a grande preocupação é a manutenção dos espaços comuns dos prédios, que sem um uso definido correm o risco de se degradarem. É o caso das grandes varandas comuns debruçadas sobre a grande via em construção lá em baixo.
Na Quinta do Lavrado a situação repete-se. Desta vez o problema são os grandes pátios abertos entre os prédios. São espaços potencialmente agradáveis mas, mais uma vez, a ausência de um uso definido – nem sequer bancos têm – torna-os numa terra de ninguém em risco de degradação rápida.
Carlos Botelho
O bairro Carlos Botelho fica na rua do mesmo nome, do lado oposto à Rua João Nascimento Costa e, tal como o bairro construído nesta última rua, está perfeitamente integrado na malha urbana da cidade, onde ocupou um espaço no limite natural da Picheleira. É um conjunto de 20 prédios brancos de quatro e seis pisos, dispostos perpendicularmente entre si, com 271 fogos que serviram para realojar dos habitantes de dois bairros de lata ali existentes, a Quinta dos Embrechados e o Casal do Pinto, e ainda algumas famílias da Curraleira.
A Quinta dos Embrechados
A actual urbanização foi construída no sítio onde ficava a Quinta dos Embrechados, uma propriedade rural expropriada pela CML nos anos 1930 para a construção duma avenida que nunca apareceu, e que, tal como aconteceu noutros casos semelhantes, foi sendo ocupada por pessoas que cultivavam as hortas à volta das suas casas. Em 1974 juntaram-se às vinte e tal famílias que ali viviam outras tantas, que ocuparam o antigo solar da quinta e acabaram por formar uma cooperativa integrada no SAAL, um projecto de realojamento que teve os seus anos de glória nos anos a seguir ao 25 de Abril. Mas coisas não correram totalmente bem – apenas uma parte dos habitantes dos Embrechados conseguiriam lugar nas casas construídas pela cooperativa. Os restantes foram realojados na Flamenga e nas Olaias quando uma parte do bairro de lata foi demolida para a construção da primeira fase da urbanização, em 1997, e os outros acabaram por ser realojados dois anos depois no local onde já moravam.
O Casal do Pinto
Separado da Quinta dos Embrechados por um pequeno vale, o Casal do Pinto era um bairro muito diferente. A ocupação terá começado nos anos 1940, com famílias oriundas na sua maioria das regiões de Lamego e Viseu. Quando começou a ser demolido, em 1999, moravam lá 337 famílias, na sua maioria socialmente integradas, incluindo trabalhadores de empresas como a PT, os CTT e a TAP, bancários e empregados da hotelaria e comércio. Além de um jardim de infância, havia o Clube Real Olímpico da Picheleira, onde os moradores podiam praticar ténis de mesa, futebol e atletismo, além de ser o grande local de convívio do bairro. A maioria dos habitantes do Casal do Pinto foram realojados no bairro Carlos Botelho, onde coabitam com os seus rivais dos Embrechados, e os restantes no bairro do Armador e nas Olaias.
Três populações rivais
O convívio entre os habitantes oriundos dos três bairros de lata não tem sido fácil, conta-nos Paula Coelho, coordenadora do Gabinete das Olaias, responsável pela manutenção destes edifícios. As pessoas do Embrechados, muitos delas de etnia cigana, são mal vistas pelas do Casal do Pinto, maioritárias, e a chegada das famílias da muito mal afamada Curraleira acabou por unir as outras duas populações contra elas. Apesar disso, dos quatro bairros geridos pelo Gabinete das Olaias, este parece ser o que suscita menos preocupações aos técnicos da Gebalis.
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Flamenga (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado)
Aqui estão bem representadas as atribulações e contradições de todo o processo de urbanização de Chelas. É um espaço amplo, desafogado, onde as construções ocuparam uma das linhas de cumeada do vale, ligeiramente inclinada para nordeste. As duas ruas principais seguem as bordas da cumeada, com poucas ligações transversais, o que contribui para que este seja um bairro muito pouco pedonal. A quase ausência de comércio local acentua-lhe o carácter de bairro virado para uso do automóvel. O novo centro comercial do Feira Nova e o parque da Bela Vista vieram preencher as funções comercial e de lazer, e a construção, que deverá começar em breve, das novas instalações do semanário Expresso e da Hemeroteca Municipal nas imediações da rotunda da Bela Vista, no prolongamento da Avenida dos Estados Unidos da América, trará a função laboral, completando finalmente o processo – uma lacuna que tarda numa urbanização pensada desde o início com base no princípio de separação de funções.
Numa volta de carro, como não podia deixar de ser, Luís Brás, director de Engenharia da Gebalis, conduz-nos pelo bairro, acompanhado pela técnica Consuelo Leite e pela coordenadora do gabinete local, Ana Isabel Palma. Passando por um primeiro bloco, que ignoramos por ser de propriedade de uma cooperativa de funcionários da Carris, e seguimos pela Avenida Avelino Teixeira da Mota, onde situa o núcleo mais antigo: um conjunto de edifícios camarários semelhantes a outros existentes noutros locais da cidade, prédios de cinco pisos com seus característicos telhados de duas águas. São 470 fogos construídos entre 1981 e 1987 para alojar um conjunto heterogéneo de pessoas: funcionários da CML e da Polícia Municipal, e também habitantes de barracas no próprio local.
As fases seguintes do bairro, construídas até aos princípios dos anos 90, formam um conjunto bastante homogéneo de prédios cor de rosa e amarelos de seis pisos, dispostos em linhas paralelas no sentido do relevo ao longo de duas grandes vias longitudinais paralelas, a Rua Ferreira de Castro e a Avenida Arlindo Vicente. Na confluência desta com a Rua Ferreira de Castro juntam-se-lhes duas torres de nove pisos, uma das quais pertence agora a uma cooperativa de funcionários da CML. Uma via transversal, a Rua Luísa Neto Jorge, fecha o conjunto, contornando a escola primária. Para sul, um grande terreno vazio aguarda uma hipotética escola preparatória que não se sabe se virá a existir.
For a deste conjunto fica a única nota dissonante: um bloco conhecido na Gebalis como Malha H mas que figura nos documentos como Matriz H. São dois grandes edifícios paralelos de sete pisos que albergam um espaço interior altamente cenográfico, com grandes galerias exteriores a ligá-los entre si ao nível dos pisos superiores. O que nos ocorre logo é que uma superprodução musical ao estilo West Side Story resultaria muito bem ali, mas os técnicos da Gebalis não acham piada nenhuma à ideia: a Malha H destoa na aparente pacatez do bairro. Aquele espaço comum no interior é uma dor de cabeça, como são todos os espaços comuns nos bairros sociais. Se aquilo fosse um condomínio privado a solução era simples, fechava-se o espaço interior, diz Luís Brás, e ocorre-nos mais uma ideia perversa: aquela é precisamente a configuração do Páteo Bagatela, uma urbanização de luxo nas Amoreiras que tem sido um sucesso apesar dos preços exorbitantes. A diferença poderá mesmo aí – o que resulta para a classe média-alta não resulta num bairro social. E no entanto é uma pena: todo o comércio do bairro está concentrado neste grande pátio que merecia melhor destino. O facto de as lojas não estarem ao nível do pátio dificulta tudo, mas não é difícil imaginar como aquele espaço seria mais agradável se tivesse qualquer coisa a preenchê-lo. Assim é como uma terra de ninguém.
Neste bairro, como em outros que foram entregues à gestão da Gebalis, a empresa tem feito não só a manutenção dos edifícios como tentado colmatar uma série de deficiências comuns aos prédios de habitação social construídos nos últimos anos: fecho escadas abertas que provocam a degradação rápida dos edifícios, fecho de varandas, impermeabilização, pinturas exteriores.
As origens
As pessoas realojadas nas Flamengas vieram na sua maioria do Bairro do Relógio, num total de 500 famílias, e as restantes de outros bairros mais pequenos da zona da Avenida Gago Coutinho – Quinta da Montanha, Quinta da Holandesa, Quinta da Noiva, Quinta dos Passarinhos.
O Bairro do Relógio era um dos maiores bairros precários da cidade de Lisboa, e devia o nome à proximidade da rotunda do mesmo nome, com o seu belo relógio de relva, entretanto desaparecido. As primeiras 750 casas foram construídas em 1965 para albergar as famílias desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira Ponte sobre o Tejo, a que se juntariam, nos dois anos seguintes, outras 400 para albergar populações de bairros de lata. Depois chegariam mais pessoas, vindas das ex-colónias. Segundo as últimas estimativas antes do desaparecimento do bairro, viviam lá mais de 7 mil pessoas. O Relógio tornou-se, com o tempo, não propriamente um barril de pólvora, mas pólvora mesmo. Os problemas sociais foram agudizando-se pela sobreocupação das casas, pelos conflitos étnicos e, finalmente, pela droga: nos seus últimos tempos o bairro tornou-se de tal forma conhecido como local de tráfico de heroína que até mudou de nome, passando a ser mais conhecido por Cambodja, numa evocação das origens orientais desta droga. As caracterizações da população eram catastróficas: baixo nível de escolaridade, conflitualidade entre pessoas de origens sociais e étnicas diversas, desemprego, toxicodependência, alcoolismo, terra de ladrões, prostitutas e traficantes de heroína. Ironicamente, uma mesma pessoa, o antigo presidente da CML Nuno Abecasis, esteve intimamente ligada ao nascimento e ao desaparecimento do Relógio. Nos anos 60 foi ele o responsável, na qualidade de quadro da Sorefame, pela concepção do bairro, e vinte anos depois, já no final do seu mandato à frente da Câmara, foi ele a promover os primeiros realojamentos. Grande parte dos habitantes do Relógio foram realojados nos blocos virados para o Parque da Bela Vista, no início dos anos 90.
Os restantes moradores realojados nas Flamengas vieram essencialmente dum conjunto de pequenos bairros precários que existiam nas imediações do actual bairro, a Quinta da Bela Vista e a Quinta da Flamenga, e em menor número, de um outro conjunto de bairros de lata que se estendia ao longo da linha de comboio, entre as traseiras do Areeiro e das Olaias: quintas da Montanha, da Noiva, dos Passarinhos e da Holandesa.
Um silêncio perturbador
Se há problemas sociais nas Flamengas, eles estão muito dissimulados, diz Consuelo Leite, uma das técnicas do gabinete local da Gebalis, que admite não ter uma imagem precisa da população do bairro. “Só contactamos com a população mais problemática”, diz. Mas “há problemas camuflados” que só se tornam visíveis para os elementos do gabinete quando sabem de alguma busca policial.
A verdade é que, num bairro que quase não dispõe de espaços de convívio – não há comércio, nem sequer um simples café ou mercearia, à excepção dos estabelecimentos da chamada Malha H – é natural que os problemas não se manifestem. E é irónico que, sendo este o único dos bairros do Vale de Chelas que tem acesso fácil ao Parque da Bela Vista – que ocupa a antiga quinta do mesmo nome e inclui o antigo solar, datado dos séculos XVII e XVIII – a população quase não o utilize.
Não é por acaso que a Malha H é a grande fonte de preocupação da Gebalis. O grande pátio interior acaba por ser o único espaço de convialidade (e conflitualidade) do bairro, com o seu conjunto de pequenas lojas – dois cafés, dois talhos e duas mercearias –, e também o maior espaço comum, com todos os problemas que isso acarreta. “A presença dos cafés favorece o aparecimento de actividades menos lícitas”, reconhece Paula Coelho, outra técnica da Gebalis que trabalhou durante alguns anos no bairro. “Aquilo é de tal forma labiríntico que a polícia não conseguia apanhar absolutamente ninguém nas rusgas”, recorda.
Este bloco espelha um pouco todos os problemas e contradições da habitação social do vale de Chelas. Das boas intenções – tentar criar um espaço comunitário que fomentasse o convívio que existia nos bairros de origem – aos resultados – um espaço comum que acaba por ser uma fonte de conflitos – vai um abismo. E a contradição principal, uma espécie de pecado original de Chelas, é o facto de se ter feito realojamentos em massa de populações de bairros de lata em edifícios que não foram pensados para esse fim. Finalmente, outra questão fundamental – as ideias sobre como se deve fazer o realojamento têm oscilado entre duas tendências: uma que entende que é essencial preservar as relações sociais existentes nos bairros de origem, e outra que põe a tónica na necessidade de reintegração social, promovendo a mistura entre grupos sociais diversos, intercalando habitação social com habitação de venda livre de modo a atrair as classes médias. A primeira posição encontra mais eco entre os sociólogos – que por sua vez influenciaram os arquitectos responsáveis – e a segunda entre os urbanistas. De qualquer modo, o bairro das Flamengas vai finalmente a caminho de ser um projecto coerente com os pressupostos de origem: já tem uma grande zona de lazer (o parque da Bela Vista), uma zona comercial (o Feira Nova), um campo de golfe (nos terrenos dantes ocupados pelo bairro do Relógio) e prepara-se para receber mais empregos, com a construção, que se espera para breve, da nova sede do “Expresso”, da Hemeroteca e da Cidade Judiciária. A presença do antigo bairro camarário (470 fogos num total de 1444), juntamente com os blocos de habitação cooperativa (cerca de 140 fogos), torna-o mais socialmente heterogéneo que outros bairros sociais do vale de Chelas. O futuro dirá se a integração foi conseguida ou não.
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Numa volta de carro, como não podia deixar de ser, Luís Brás, director de Engenharia da Gebalis, conduz-nos pelo bairro, acompanhado pela técnica Consuelo Leite e pela coordenadora do gabinete local, Ana Isabel Palma. Passando por um primeiro bloco, que ignoramos por ser de propriedade de uma cooperativa de funcionários da Carris, e seguimos pela Avenida Avelino Teixeira da Mota, onde situa o núcleo mais antigo: um conjunto de edifícios camarários semelhantes a outros existentes noutros locais da cidade, prédios de cinco pisos com seus característicos telhados de duas águas. São 470 fogos construídos entre 1981 e 1987 para alojar um conjunto heterogéneo de pessoas: funcionários da CML e da Polícia Municipal, e também habitantes de barracas no próprio local.
As fases seguintes do bairro, construídas até aos princípios dos anos 90, formam um conjunto bastante homogéneo de prédios cor de rosa e amarelos de seis pisos, dispostos em linhas paralelas no sentido do relevo ao longo de duas grandes vias longitudinais paralelas, a Rua Ferreira de Castro e a Avenida Arlindo Vicente. Na confluência desta com a Rua Ferreira de Castro juntam-se-lhes duas torres de nove pisos, uma das quais pertence agora a uma cooperativa de funcionários da CML. Uma via transversal, a Rua Luísa Neto Jorge, fecha o conjunto, contornando a escola primária. Para sul, um grande terreno vazio aguarda uma hipotética escola preparatória que não se sabe se virá a existir.
For a deste conjunto fica a única nota dissonante: um bloco conhecido na Gebalis como Malha H mas que figura nos documentos como Matriz H. São dois grandes edifícios paralelos de sete pisos que albergam um espaço interior altamente cenográfico, com grandes galerias exteriores a ligá-los entre si ao nível dos pisos superiores. O que nos ocorre logo é que uma superprodução musical ao estilo West Side Story resultaria muito bem ali, mas os técnicos da Gebalis não acham piada nenhuma à ideia: a Malha H destoa na aparente pacatez do bairro. Aquele espaço comum no interior é uma dor de cabeça, como são todos os espaços comuns nos bairros sociais. Se aquilo fosse um condomínio privado a solução era simples, fechava-se o espaço interior, diz Luís Brás, e ocorre-nos mais uma ideia perversa: aquela é precisamente a configuração do Páteo Bagatela, uma urbanização de luxo nas Amoreiras que tem sido um sucesso apesar dos preços exorbitantes. A diferença poderá mesmo aí – o que resulta para a classe média-alta não resulta num bairro social. E no entanto é uma pena: todo o comércio do bairro está concentrado neste grande pátio que merecia melhor destino. O facto de as lojas não estarem ao nível do pátio dificulta tudo, mas não é difícil imaginar como aquele espaço seria mais agradável se tivesse qualquer coisa a preenchê-lo. Assim é como uma terra de ninguém.
Neste bairro, como em outros que foram entregues à gestão da Gebalis, a empresa tem feito não só a manutenção dos edifícios como tentado colmatar uma série de deficiências comuns aos prédios de habitação social construídos nos últimos anos: fecho escadas abertas que provocam a degradação rápida dos edifícios, fecho de varandas, impermeabilização, pinturas exteriores.
As origens
As pessoas realojadas nas Flamengas vieram na sua maioria do Bairro do Relógio, num total de 500 famílias, e as restantes de outros bairros mais pequenos da zona da Avenida Gago Coutinho – Quinta da Montanha, Quinta da Holandesa, Quinta da Noiva, Quinta dos Passarinhos.
O Bairro do Relógio era um dos maiores bairros precários da cidade de Lisboa, e devia o nome à proximidade da rotunda do mesmo nome, com o seu belo relógio de relva, entretanto desaparecido. As primeiras 750 casas foram construídas em 1965 para albergar as famílias desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira Ponte sobre o Tejo, a que se juntariam, nos dois anos seguintes, outras 400 para albergar populações de bairros de lata. Depois chegariam mais pessoas, vindas das ex-colónias. Segundo as últimas estimativas antes do desaparecimento do bairro, viviam lá mais de 7 mil pessoas. O Relógio tornou-se, com o tempo, não propriamente um barril de pólvora, mas pólvora mesmo. Os problemas sociais foram agudizando-se pela sobreocupação das casas, pelos conflitos étnicos e, finalmente, pela droga: nos seus últimos tempos o bairro tornou-se de tal forma conhecido como local de tráfico de heroína que até mudou de nome, passando a ser mais conhecido por Cambodja, numa evocação das origens orientais desta droga. As caracterizações da população eram catastróficas: baixo nível de escolaridade, conflitualidade entre pessoas de origens sociais e étnicas diversas, desemprego, toxicodependência, alcoolismo, terra de ladrões, prostitutas e traficantes de heroína. Ironicamente, uma mesma pessoa, o antigo presidente da CML Nuno Abecasis, esteve intimamente ligada ao nascimento e ao desaparecimento do Relógio. Nos anos 60 foi ele o responsável, na qualidade de quadro da Sorefame, pela concepção do bairro, e vinte anos depois, já no final do seu mandato à frente da Câmara, foi ele a promover os primeiros realojamentos. Grande parte dos habitantes do Relógio foram realojados nos blocos virados para o Parque da Bela Vista, no início dos anos 90.
Os restantes moradores realojados nas Flamengas vieram essencialmente dum conjunto de pequenos bairros precários que existiam nas imediações do actual bairro, a Quinta da Bela Vista e a Quinta da Flamenga, e em menor número, de um outro conjunto de bairros de lata que se estendia ao longo da linha de comboio, entre as traseiras do Areeiro e das Olaias: quintas da Montanha, da Noiva, dos Passarinhos e da Holandesa.
Um silêncio perturbador
Se há problemas sociais nas Flamengas, eles estão muito dissimulados, diz Consuelo Leite, uma das técnicas do gabinete local da Gebalis, que admite não ter uma imagem precisa da população do bairro. “Só contactamos com a população mais problemática”, diz. Mas “há problemas camuflados” que só se tornam visíveis para os elementos do gabinete quando sabem de alguma busca policial.
A verdade é que, num bairro que quase não dispõe de espaços de convívio – não há comércio, nem sequer um simples café ou mercearia, à excepção dos estabelecimentos da chamada Malha H – é natural que os problemas não se manifestem. E é irónico que, sendo este o único dos bairros do Vale de Chelas que tem acesso fácil ao Parque da Bela Vista – que ocupa a antiga quinta do mesmo nome e inclui o antigo solar, datado dos séculos XVII e XVIII – a população quase não o utilize.
Não é por acaso que a Malha H é a grande fonte de preocupação da Gebalis. O grande pátio interior acaba por ser o único espaço de convialidade (e conflitualidade) do bairro, com o seu conjunto de pequenas lojas – dois cafés, dois talhos e duas mercearias –, e também o maior espaço comum, com todos os problemas que isso acarreta. “A presença dos cafés favorece o aparecimento de actividades menos lícitas”, reconhece Paula Coelho, outra técnica da Gebalis que trabalhou durante alguns anos no bairro. “Aquilo é de tal forma labiríntico que a polícia não conseguia apanhar absolutamente ninguém nas rusgas”, recorda.
Este bloco espelha um pouco todos os problemas e contradições da habitação social do vale de Chelas. Das boas intenções – tentar criar um espaço comunitário que fomentasse o convívio que existia nos bairros de origem – aos resultados – um espaço comum que acaba por ser uma fonte de conflitos – vai um abismo. E a contradição principal, uma espécie de pecado original de Chelas, é o facto de se ter feito realojamentos em massa de populações de bairros de lata em edifícios que não foram pensados para esse fim. Finalmente, outra questão fundamental – as ideias sobre como se deve fazer o realojamento têm oscilado entre duas tendências: uma que entende que é essencial preservar as relações sociais existentes nos bairros de origem, e outra que põe a tónica na necessidade de reintegração social, promovendo a mistura entre grupos sociais diversos, intercalando habitação social com habitação de venda livre de modo a atrair as classes médias. A primeira posição encontra mais eco entre os sociólogos – que por sua vez influenciaram os arquitectos responsáveis – e a segunda entre os urbanistas. De qualquer modo, o bairro das Flamengas vai finalmente a caminho de ser um projecto coerente com os pressupostos de origem: já tem uma grande zona de lazer (o parque da Bela Vista), uma zona comercial (o Feira Nova), um campo de golfe (nos terrenos dantes ocupados pelo bairro do Relógio) e prepara-se para receber mais empregos, com a construção, que se espera para breve, da nova sede do “Expresso”, da Hemeroteca e da Cidade Judiciária. A presença do antigo bairro camarário (470 fogos num total de 1444), juntamente com os blocos de habitação cooperativa (cerca de 140 fogos), torna-o mais socialmente heterogéneo que outros bairros sociais do vale de Chelas. O futuro dirá se a integração foi conseguida ou não.
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Alfinetes e Marquês de Abrantes (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado)
Esta é uma das zonas do vale de Chelas em que mais se sente a nova cidade a tomar forma e consolidar-se. O relevo pouco acidentado facilita – um suave declive que desce da colina do Bairro do Condado para o rio. Já de si este é, de todos os bairros do vale, e apesar de todos os eventuais problemas arquitectónicos que possa ter, aquele em que mais se sente o fervilhar da vida urbana, pessoas nas ruas, lojas, cafés, esplanadas. A proximidade entre o Condado e as diversas fases do Marquês de Abrantes e dos Alfinetes permite antever para dentro de poucos anos um pedaço de cidade contínuo e integrado, apesar da heterogeneidade de estilos arquitectónicos e urbanísticos. A presença da Escola Secundária de Marvila, estrategicamente colocada no centro, contribui bastante para a unidade do conjunto.
Tal como acontece noutros locais de Chelas, o mesmo nome reúne urbanizações de características muito diferentes, distintos modos de pensar a cidade, mas aqui a proximidade entre elas acaba paradoxalmente por diluir esse efeito.
A identificação dos lugares não é fácil. O nome de Bairro dos Alfinetes serve para designar várias urbanizações muito diferentes e nem sempre contíguas, enquanto no Bairro Marquês de Abrantes os contrastes existem mas não tão grandes. Algumas ruas ainda não têm nome – as pessoas do Piano reclamam por morarem na rua J13 e não na Rua Artur Duarte, de que esta é um prolongamento. Os prédios não têm números de polícia e são referidos pelos números de lote, nem sempre dispostos em sequência. Finalmente, as pessoas que aqui vivem foram na sua maioria realojadas do antigo Bairro Chinês, mas não todas, e há dois conjuntos urbanos bem marcados cujos habitantes vieram de outros locais. O resultado é que, mesmo para os elementos do gabinete local da Gebalis, os blocos urbanos são chamados principalmente pelas suas cores dominantes: os prédios cor de rosa, os azuis e amarelos, os verdes e amarelos, o Piano. Entre os habitantes, os nomes podem variar – os da fase I dos Alfinetes não querem ser conotados com os da fase III, e dizem que moram nas Salgadas, que de facto é o nome de um bairro camarário mesmo ao lado. Enfim, se as urbanizações são muito heterogéneas, a toponímia é confusa, e o mapa mental que resulta daqui é caótico. É um problema que dificulta a apropriação do espaço pelas pessoas e coloca alguns problemas à sua auto-estima de moradores. A equipa da Gebalis está consciente disso – mas a toponímia é uma questão na alçada da complicada burocracia camarária, e por isso o máximo que se faz é pôr umas placas identificativas dos bairros, de resto utilíssimas para os forasteiros.
A paisagem urbana não é nada confusa, no entanto. Quem sai do Condado pela avenida principal encontra, ainda dentro do pequeno planalto, três torres vermelhas e brancas de habitação cooperativa onde alguns fogos estão sob administração da Gebalis. A proximidade do Condado e o comércio nos rés-do-chão fazem com que estejam plenamente nele integrados.
Ao sair do Condado, temos do lado direito a primeira fase do Bairro dos Alfinetes, construída em 1995: debruçados em paralelo sobre o vale, quatro altos, grandes e densos blocos cor de rosa serviram para os primeiros realojamentos do Bairro Chinês. Fazendo com este um ângulo de 45º, seguem-se quatro outros prédios mais baixos, os verdes e amarelos, onde foi realojada parte da população da Quinta do Coxo. Continuando para a esquerda, surge-nos, virada na direcção do rio, a recentíssima e simpática urbanização dos prédios azuis e amarelos, cujos moradores vieram de um dos últimos bairro de barracas em Lisboa, a Curraleira. Passando o último bloco dos Alfinetes, deparamos com uma deliciosa reminiscência de outros tempos: uma construção apalaçada de aspecto barroco, praticamente em ruínas, onde resiste estoicamente a sede do Futebol Clube Recreativo das Azinhagas, a bem dizer mais uma taberna com uma pequena sala de troféus e uma deliciosa mesa de matraquilhos num espaço coberto mas aberto para a rua. É a antiga casa senhorial da Quinta das Fontes, que vai ser recuperada como pólo cultural – a futura Casa da Escrita.
Continuando, encontramos o Marquês de Abrantes, com os discretos prédios amarelo-claro em U da última fase, e mais, acima, o grande bloco quase triangular com uma praça interior, o chamado Piano. Acima do bairro, outra colectividade resistente, o Futebol Clube do Rossão.
Apesar de terem sido construídas num espaço de tempo tão curto – uns cinco anos apenas - estas urbanizações representam, curiosamente, um pouco da história da evolução dos modos de pensar a cidade ao longo do século XX: desde a construção densa em altura e sem comércio ao nível da rua – os blocos da primeira fase dos Alfinetes – até ao contemporâneo regresso ao conceito tradicional de cidade, com uma ocupação menos densa, prédios baixos em U com zonas comerciais e de lazer viradas para o exterior – as últimas fases dos Alfinetes e do Marquês de Abrantes – passando pelo conceito de bloco comunitário, com os espaços de lazer no interior, do Piano, a evocar outras utopias urbanas.
Dos palácios da aristocracia rural aos bairros pobres do proletariado
Ao contrário do que possa parecer, a ocupação urbana deste novo pedaço de cidade não representa uma ruptura com o passado, antes uma continuidade de que muitos dos habitantes são também testemunhos vivos. As ruínas do Palácio dos Alfinetes e do solar da antiga Quinta das Fontes, com o seu clube, e a sede do Futebol Clube do Rossão, de finais dos anos 60, são os testemunhos materiais a ligar ocupações sucessivas, desde as propriedades agrícolas da aristocracia rural das antigas quintas da periferia lisboeta até à presente cidade moderna, passando pela memória da antiga cintura industrial e dos seus operários.
Toda esta zona era, até meados do século XIX, constituída por várias quintas pertencentes a nomes sonantes da aristocracia – o duque de Lafões, o marquês de Marialva, o marquês de Abrantes – que foram depois desmembradas e compradas à nobreza decadente pela classe ascendente de comerciantes e industriais. Mais tarde, em meados do século XX, começaram a surgir em torno do abandonado palácio dos marqueses de Abrantes as primeiras habitações clandestinas, ocupadas por trabalhadores nas indústrias do então florescente arrabalde industrial do oriente de Lisboa – a Fábrica Nacional de Sabões, a Fábrica de Borracha, a Fábrica dos Fósforos e os grandes armazéns vinícolas da Abel Pereira da Fonseca. Em pouco tempo toda a antiga quinta dos marqueses de Abrantes, delimitada a oeste pela Azinhaga dos Alfinetes e a leste pela Rua José do Patrocínio, e entretanto separada do palácio pela linha de caminho de ferro, daria origem ao Bairro Chinês, um dos maiores bairros de barracas da Lisboa oriental, que chegou a ter cerca de 5 mil habitantes. Ninguém sabe porque se chamava Bairro Chinês a este aglomerado de personalidade vincada em que predominavam operários que trabalhavam nas mesmas fábricas e perpetuavam a ligação às suas terras de origem, mantendo solidariedades e laços familiares. Como sempre acontece nas migrações, os seus habitantes tinham uma origem comum – eram antigos camponeses da Beira Alta, em especial de Castro Daire e Resende.
O futebol estava também presente como factor de identificação colectiva, com o mais carismático dos clubes lisboetas para além dos três grandes: o Oriental, famoso pelo entusiasmo da sua massa associativa nos jogos disputados em casa, e cujo campo ficava no topo norte do bairro.
Separada da antiga quinta dos marqueses de Abrantes pela Azinhaga dos Alfinetes, a Quinta dos Alfinetes, antiga Quinta do Condado, era aproveitada pelos habitantes do Bairro Chinês para cultivar as terras no tempo livre que as fábricas lhes deixavam. Ao cimo da Azinhaga dos Alfinetes, o antigo Palácio do Condado, agora conhecido por Palácio dos Alfinetes por nele ter funcionado uma fábrica de alfinetes, perpetuava a memória da antiga aristocracia rural.
O presente
Cristina Gonçalves, técnica da Gebalis no Gabinete do Bairro dos Alfinetes, recorda-se de ver, nos terrenos ao lado do edifício onde fica o gabinete, os rebanhos a pastar e as hortas onde os operários do Bairro Chinês cultivavam as suas origens camponesas. Ainda hoje muitos antigos moradores do bairro operário mantêm as suas casas nas aldeias de origem, e cultivam essa ligação em festas anuais que reproduzem na grande cidade as romarias camponesas. O entusiasmo com que encaram as festas de Santo António (a quem os habitantes fizeram questão erigir um trono em materiais perenes) e participação activa nas marchas dos Santos Populares mostram, por outro lado, uma integração plena no imaginário lisboeta e são um elo de identificação com os outros bairros populares da cidade – Alfama, Castelo, Bica, Graça, Madragoa, por sinal todos eles também de fortes tradições operárias. Na opinião dos técnicos da Gebalis, os antigos habitantes do Bairro Chinês formam uma população trabalhadora, perfeitamente integrada e colaborante. O realojamento foi faseado, primeiro nos grandes blocos cor de rosa dos Alfinetes e, entre 1995 e 1997, e entre 1997 e 2000 no Piano do Marquês de Abrantes, num total de 292 fogos. O grande terreno ainda livre entre a Escola Secundária e o Piano ainda é cultivado, e o campo do Oriental lá continua, no topo de um conjunto de velhos pátios e casas degradadas dantes contíguas ao Bairro Chinês, que serão demolidas para a expansão das instalações do clube, sendo os seus habitantes realojados, em princípio, nos 212 fogos dos prédios da última fase do bairro Marquês de Abrantes.
A Quinta do Levy e o Pátio Manuel Alves são outros dois bairros degradados de Marvila mais pequenos que viram parte dos seus habitantes realojados nos Alfinetes.
O grande problema social do bairro são os moradores dos blocos verdes e amarelos onde se situa o gabinete (192 fogos), onde foram realojados parte dos moradores da Quinta do Monte Coxo, um bairro de lata que ficava na zona das Olaias. Os moradores mantêm a cultura de desinserção do bairro de origem, num contraste com os operários das urbanizações vizinhas, e fazem deste pequeno conjunto de prédios quase um gueto onde os outros evitam passar. E de onde os de lá também evitam sair: “Muitos jovens só conhecem de Lisboa o percurso de autocarro entre os Alfinetes e as Olaias” (onde ficaram realojados os restantes moradores do Monte Coxo), diz Cristina Gonçalves. E o caminho para a piscina dos Olivais, que começaram a frequentar no âmbito dum programa de inserção social. “Mas desde que aprenderam a ir sozinhos para lá começaram a fazer distúrbios, e acabaram por ser proibidos de entrar na piscina.”
São jovens que aos 16 anos nunca frequentaram a escola, analfabetos perdidos na grande cidade que seguem o exemplo dos pais, recusando qualquer emprego fixo: sobrevivem de biscates, pequenos furtos, esquemas diversos, venda de artigos roubados, tráfico de droga. Recorrem ao rendimento mínimo garantido, acabam por perder-lhe o direito por não cumprirem as regras de tentativa de inserção social, e recorrem de novo assim que podem. Há sempre moradores que estão presos, com os filhos entregues a um parente. É uma rede fortíssima de solidariedade assente em laços familiares muito estreitos, uma tradição que vem dos tempos do Monte Coxo – famílias ligadas em simultâneo por diversos laços de parentesco, irmãos que casam com irmãs de outras família, primos por vários lados ao mesmo tempo.
Quanto à nova urbanização azul e amarela, tem sido uma agradável surpresa para os funcionários do gabinete, cujos apartamentos com vista para o Tejo quase lhes fazem inveja. As zonas de convívio viradas para o rio para o rio são muito agradáveis, mas tudo o que é espaços comuns são dores de cabeça para a Gebalis, diz Sandra Pinto, a responsável pelos espaços verdes e arranjos exteriores. A má fama da muito mediática Curraleira, de onde vieram os primeiros habitantes fazia-lhe temer o pior – vandalizações, usos indevidos. Mas não. Pelo contrário, as pessoas mostram-se muitos contentes e ciosas da sua bela urbanização, e as únicas queixas que aparecem são dirigidas aos jovens do antigo Monte Coxo.
Este é um projecto “chave na mão”, ou seja, tudo, desde do projecto de arquitectura à concepção e construção, foi da responsabilidade do empreiteiro, ao contrário da grande maioria das outras urbanizações em que a arquitectura é da responsabilidade da CML e a construção adjudicada. Jorge Tomás, responsável pela manutenção dos edifícios, mostra-se satisfeito com esta solução, que não lhe tem dado grande trabalho.
Nas outras urbanizações da zona, como na generalidade dos os bairros cuja gestão está confiada à Gebalis, foi preciso fazer correcções e melhoramentos, principalmente relacionadas com problemas de infiltrações e excesso de humidade: impermeabilização dos exteriores, mal executada pelos empreiteiros, fecho de escadas abertas que contribuíam para a degradação dos prédios. Também recorrente é a concepção inadequada das portas exteriores, com partes inferiores em vidro que se quebra facilmente, além de outro pormenor quase omnipresente e algo irritante: os projectos raramente incluem estendais exteriores.
Com a recuperação previstas do Palácio dos Alfinetes e da casa da Quinta das Fontes, o arranjo dos espaços exteriores, uma toponímia que dê sentido a todo este conjunto urbano e melhores transportes públicos (e porque não pensar em ligações eficazes à estação ferroviária de Braço de Prata), e beneficiando da proximidade com o Condado, que tende a assumir-se como lugar central de todo o vale, esta poderá ser uma das primeiras zonas do vale de Chelas a perder o carácter suburbano que ainda se sente para se transformar num aprazivelmente caótico e vivo pedaço da grande cidade. Finalmente, em breve serão construídos mais seis lotes para cooperativas de habitação (dois no Marquês de Abrantes e quatro nos Alfinetes, num total de 251 fogos, mais 29 para realojamento), trazendo para a zona uma saudável diversidade social.
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Tal como acontece noutros locais de Chelas, o mesmo nome reúne urbanizações de características muito diferentes, distintos modos de pensar a cidade, mas aqui a proximidade entre elas acaba paradoxalmente por diluir esse efeito.
A identificação dos lugares não é fácil. O nome de Bairro dos Alfinetes serve para designar várias urbanizações muito diferentes e nem sempre contíguas, enquanto no Bairro Marquês de Abrantes os contrastes existem mas não tão grandes. Algumas ruas ainda não têm nome – as pessoas do Piano reclamam por morarem na rua J13 e não na Rua Artur Duarte, de que esta é um prolongamento. Os prédios não têm números de polícia e são referidos pelos números de lote, nem sempre dispostos em sequência. Finalmente, as pessoas que aqui vivem foram na sua maioria realojadas do antigo Bairro Chinês, mas não todas, e há dois conjuntos urbanos bem marcados cujos habitantes vieram de outros locais. O resultado é que, mesmo para os elementos do gabinete local da Gebalis, os blocos urbanos são chamados principalmente pelas suas cores dominantes: os prédios cor de rosa, os azuis e amarelos, os verdes e amarelos, o Piano. Entre os habitantes, os nomes podem variar – os da fase I dos Alfinetes não querem ser conotados com os da fase III, e dizem que moram nas Salgadas, que de facto é o nome de um bairro camarário mesmo ao lado. Enfim, se as urbanizações são muito heterogéneas, a toponímia é confusa, e o mapa mental que resulta daqui é caótico. É um problema que dificulta a apropriação do espaço pelas pessoas e coloca alguns problemas à sua auto-estima de moradores. A equipa da Gebalis está consciente disso – mas a toponímia é uma questão na alçada da complicada burocracia camarária, e por isso o máximo que se faz é pôr umas placas identificativas dos bairros, de resto utilíssimas para os forasteiros.
A paisagem urbana não é nada confusa, no entanto. Quem sai do Condado pela avenida principal encontra, ainda dentro do pequeno planalto, três torres vermelhas e brancas de habitação cooperativa onde alguns fogos estão sob administração da Gebalis. A proximidade do Condado e o comércio nos rés-do-chão fazem com que estejam plenamente nele integrados.
Ao sair do Condado, temos do lado direito a primeira fase do Bairro dos Alfinetes, construída em 1995: debruçados em paralelo sobre o vale, quatro altos, grandes e densos blocos cor de rosa serviram para os primeiros realojamentos do Bairro Chinês. Fazendo com este um ângulo de 45º, seguem-se quatro outros prédios mais baixos, os verdes e amarelos, onde foi realojada parte da população da Quinta do Coxo. Continuando para a esquerda, surge-nos, virada na direcção do rio, a recentíssima e simpática urbanização dos prédios azuis e amarelos, cujos moradores vieram de um dos últimos bairro de barracas em Lisboa, a Curraleira. Passando o último bloco dos Alfinetes, deparamos com uma deliciosa reminiscência de outros tempos: uma construção apalaçada de aspecto barroco, praticamente em ruínas, onde resiste estoicamente a sede do Futebol Clube Recreativo das Azinhagas, a bem dizer mais uma taberna com uma pequena sala de troféus e uma deliciosa mesa de matraquilhos num espaço coberto mas aberto para a rua. É a antiga casa senhorial da Quinta das Fontes, que vai ser recuperada como pólo cultural – a futura Casa da Escrita.
Continuando, encontramos o Marquês de Abrantes, com os discretos prédios amarelo-claro em U da última fase, e mais, acima, o grande bloco quase triangular com uma praça interior, o chamado Piano. Acima do bairro, outra colectividade resistente, o Futebol Clube do Rossão.
Apesar de terem sido construídas num espaço de tempo tão curto – uns cinco anos apenas - estas urbanizações representam, curiosamente, um pouco da história da evolução dos modos de pensar a cidade ao longo do século XX: desde a construção densa em altura e sem comércio ao nível da rua – os blocos da primeira fase dos Alfinetes – até ao contemporâneo regresso ao conceito tradicional de cidade, com uma ocupação menos densa, prédios baixos em U com zonas comerciais e de lazer viradas para o exterior – as últimas fases dos Alfinetes e do Marquês de Abrantes – passando pelo conceito de bloco comunitário, com os espaços de lazer no interior, do Piano, a evocar outras utopias urbanas.
Dos palácios da aristocracia rural aos bairros pobres do proletariado
Ao contrário do que possa parecer, a ocupação urbana deste novo pedaço de cidade não representa uma ruptura com o passado, antes uma continuidade de que muitos dos habitantes são também testemunhos vivos. As ruínas do Palácio dos Alfinetes e do solar da antiga Quinta das Fontes, com o seu clube, e a sede do Futebol Clube do Rossão, de finais dos anos 60, são os testemunhos materiais a ligar ocupações sucessivas, desde as propriedades agrícolas da aristocracia rural das antigas quintas da periferia lisboeta até à presente cidade moderna, passando pela memória da antiga cintura industrial e dos seus operários.
Toda esta zona era, até meados do século XIX, constituída por várias quintas pertencentes a nomes sonantes da aristocracia – o duque de Lafões, o marquês de Marialva, o marquês de Abrantes – que foram depois desmembradas e compradas à nobreza decadente pela classe ascendente de comerciantes e industriais. Mais tarde, em meados do século XX, começaram a surgir em torno do abandonado palácio dos marqueses de Abrantes as primeiras habitações clandestinas, ocupadas por trabalhadores nas indústrias do então florescente arrabalde industrial do oriente de Lisboa – a Fábrica Nacional de Sabões, a Fábrica de Borracha, a Fábrica dos Fósforos e os grandes armazéns vinícolas da Abel Pereira da Fonseca. Em pouco tempo toda a antiga quinta dos marqueses de Abrantes, delimitada a oeste pela Azinhaga dos Alfinetes e a leste pela Rua José do Patrocínio, e entretanto separada do palácio pela linha de caminho de ferro, daria origem ao Bairro Chinês, um dos maiores bairros de barracas da Lisboa oriental, que chegou a ter cerca de 5 mil habitantes. Ninguém sabe porque se chamava Bairro Chinês a este aglomerado de personalidade vincada em que predominavam operários que trabalhavam nas mesmas fábricas e perpetuavam a ligação às suas terras de origem, mantendo solidariedades e laços familiares. Como sempre acontece nas migrações, os seus habitantes tinham uma origem comum – eram antigos camponeses da Beira Alta, em especial de Castro Daire e Resende.
O futebol estava também presente como factor de identificação colectiva, com o mais carismático dos clubes lisboetas para além dos três grandes: o Oriental, famoso pelo entusiasmo da sua massa associativa nos jogos disputados em casa, e cujo campo ficava no topo norte do bairro.
Separada da antiga quinta dos marqueses de Abrantes pela Azinhaga dos Alfinetes, a Quinta dos Alfinetes, antiga Quinta do Condado, era aproveitada pelos habitantes do Bairro Chinês para cultivar as terras no tempo livre que as fábricas lhes deixavam. Ao cimo da Azinhaga dos Alfinetes, o antigo Palácio do Condado, agora conhecido por Palácio dos Alfinetes por nele ter funcionado uma fábrica de alfinetes, perpetuava a memória da antiga aristocracia rural.
O presente
Cristina Gonçalves, técnica da Gebalis no Gabinete do Bairro dos Alfinetes, recorda-se de ver, nos terrenos ao lado do edifício onde fica o gabinete, os rebanhos a pastar e as hortas onde os operários do Bairro Chinês cultivavam as suas origens camponesas. Ainda hoje muitos antigos moradores do bairro operário mantêm as suas casas nas aldeias de origem, e cultivam essa ligação em festas anuais que reproduzem na grande cidade as romarias camponesas. O entusiasmo com que encaram as festas de Santo António (a quem os habitantes fizeram questão erigir um trono em materiais perenes) e participação activa nas marchas dos Santos Populares mostram, por outro lado, uma integração plena no imaginário lisboeta e são um elo de identificação com os outros bairros populares da cidade – Alfama, Castelo, Bica, Graça, Madragoa, por sinal todos eles também de fortes tradições operárias. Na opinião dos técnicos da Gebalis, os antigos habitantes do Bairro Chinês formam uma população trabalhadora, perfeitamente integrada e colaborante. O realojamento foi faseado, primeiro nos grandes blocos cor de rosa dos Alfinetes e, entre 1995 e 1997, e entre 1997 e 2000 no Piano do Marquês de Abrantes, num total de 292 fogos. O grande terreno ainda livre entre a Escola Secundária e o Piano ainda é cultivado, e o campo do Oriental lá continua, no topo de um conjunto de velhos pátios e casas degradadas dantes contíguas ao Bairro Chinês, que serão demolidas para a expansão das instalações do clube, sendo os seus habitantes realojados, em princípio, nos 212 fogos dos prédios da última fase do bairro Marquês de Abrantes.
A Quinta do Levy e o Pátio Manuel Alves são outros dois bairros degradados de Marvila mais pequenos que viram parte dos seus habitantes realojados nos Alfinetes.
O grande problema social do bairro são os moradores dos blocos verdes e amarelos onde se situa o gabinete (192 fogos), onde foram realojados parte dos moradores da Quinta do Monte Coxo, um bairro de lata que ficava na zona das Olaias. Os moradores mantêm a cultura de desinserção do bairro de origem, num contraste com os operários das urbanizações vizinhas, e fazem deste pequeno conjunto de prédios quase um gueto onde os outros evitam passar. E de onde os de lá também evitam sair: “Muitos jovens só conhecem de Lisboa o percurso de autocarro entre os Alfinetes e as Olaias” (onde ficaram realojados os restantes moradores do Monte Coxo), diz Cristina Gonçalves. E o caminho para a piscina dos Olivais, que começaram a frequentar no âmbito dum programa de inserção social. “Mas desde que aprenderam a ir sozinhos para lá começaram a fazer distúrbios, e acabaram por ser proibidos de entrar na piscina.”
São jovens que aos 16 anos nunca frequentaram a escola, analfabetos perdidos na grande cidade que seguem o exemplo dos pais, recusando qualquer emprego fixo: sobrevivem de biscates, pequenos furtos, esquemas diversos, venda de artigos roubados, tráfico de droga. Recorrem ao rendimento mínimo garantido, acabam por perder-lhe o direito por não cumprirem as regras de tentativa de inserção social, e recorrem de novo assim que podem. Há sempre moradores que estão presos, com os filhos entregues a um parente. É uma rede fortíssima de solidariedade assente em laços familiares muito estreitos, uma tradição que vem dos tempos do Monte Coxo – famílias ligadas em simultâneo por diversos laços de parentesco, irmãos que casam com irmãs de outras família, primos por vários lados ao mesmo tempo.
Quanto à nova urbanização azul e amarela, tem sido uma agradável surpresa para os funcionários do gabinete, cujos apartamentos com vista para o Tejo quase lhes fazem inveja. As zonas de convívio viradas para o rio para o rio são muito agradáveis, mas tudo o que é espaços comuns são dores de cabeça para a Gebalis, diz Sandra Pinto, a responsável pelos espaços verdes e arranjos exteriores. A má fama da muito mediática Curraleira, de onde vieram os primeiros habitantes fazia-lhe temer o pior – vandalizações, usos indevidos. Mas não. Pelo contrário, as pessoas mostram-se muitos contentes e ciosas da sua bela urbanização, e as únicas queixas que aparecem são dirigidas aos jovens do antigo Monte Coxo.
Este é um projecto “chave na mão”, ou seja, tudo, desde do projecto de arquitectura à concepção e construção, foi da responsabilidade do empreiteiro, ao contrário da grande maioria das outras urbanizações em que a arquitectura é da responsabilidade da CML e a construção adjudicada. Jorge Tomás, responsável pela manutenção dos edifícios, mostra-se satisfeito com esta solução, que não lhe tem dado grande trabalho.
Nas outras urbanizações da zona, como na generalidade dos os bairros cuja gestão está confiada à Gebalis, foi preciso fazer correcções e melhoramentos, principalmente relacionadas com problemas de infiltrações e excesso de humidade: impermeabilização dos exteriores, mal executada pelos empreiteiros, fecho de escadas abertas que contribuíam para a degradação dos prédios. Também recorrente é a concepção inadequada das portas exteriores, com partes inferiores em vidro que se quebra facilmente, além de outro pormenor quase omnipresente e algo irritante: os projectos raramente incluem estendais exteriores.
Com a recuperação previstas do Palácio dos Alfinetes e da casa da Quinta das Fontes, o arranjo dos espaços exteriores, uma toponímia que dê sentido a todo este conjunto urbano e melhores transportes públicos (e porque não pensar em ligações eficazes à estação ferroviária de Braço de Prata), e beneficiando da proximidade com o Condado, que tende a assumir-se como lugar central de todo o vale, esta poderá ser uma das primeiras zonas do vale de Chelas a perder o carácter suburbano que ainda se sente para se transformar num aprazivelmente caótico e vivo pedaço da grande cidade. Finalmente, em breve serão construídos mais seis lotes para cooperativas de habitação (dois no Marquês de Abrantes e quatro nos Alfinetes, num total de 251 fogos, mais 29 para realojamento), trazendo para a zona uma saudável diversidade social.
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Na Palmeira com José Sá Fernandes (publicado na "Flirt")
Era para ser no bar do Hotel do Chiado, mas quando vamos a caminho o nosso advogado sugere a Palmeira, na Rua do Crucifixo. Nem de propósito - é um lugar que faz parte da memória de várias gerações de pessoas que trabalharam ou estudaram na zona da Baixa-Chiado e está em perigo. Ao longo da conversa a pessoa que nos atende vai mostrando a sua indignação: o prédio foi comprado pela CML e a cervejaria-tasca-restaurante está em risco de ser despejada sabe-se lá porquê, pelos vistos a Câmara achou que naquele espaço ficava melhor um equipamento cultural qualquer. O advogado vai insistindo: 'Ponha aí uma folhinha para o pessoal assinar, não custa nada'. Às tantas, a propósito dos obstáculos nos passeios, conta o que viu há dias na Palmeira: um cego tentava passar para a sala de dentro com a sua bengala tacteante, e os clientes que estavam na entrada orientavam-no: "Mais para a esquerda! Mais a para a direita!" Não há equipamento cultural que substitua isto.
José Sá Fernandes tornou-se conhecido faz agora dois anos, quando conseguiu embargar as obras do metro no Terreiro do Paço. Tudo começou quando um dia ia a passar por ali, em 1997, e reparou que o Cais das Colunas tinha desaparecido de repente. Não havia nenhum aviso a indicar o que estava a acontecer, mas alguém lhe disse que eram as obras do metro. Descobriu depois que a obra não estava autorizada, não tinha havido concurso público, e nem sequer estava justificada por qualquer estudo; pôs o Metro em tribunal, aproveitando a nova figura da acção popular, que permite a qualquer pessoa pôr um processo em tribunal para defender o ambiente, a qualidade de vida e o património cultural, sem pagar custas judiciais para abrir o processo.
Demorou três anos, mas o Supremo Tribunal Administrativo deu-lhe razão. O Metro acabou por arranjar as licenças e as obras da linha lá continuaram. Mas apesar de tudo foi uma vitória importante. Depois disso já processou, por exemplo, todos os ministérios e várias outras instituições que ocupam as arcadas do Terreiro do Paço para que as libertem para uso do povo. Uma das últimas acções, contra a CML, tenta impedir que se construa o Hotel Ópera, na Avenida da Índia, que vai obstruir uma das vistas mais bonitas da cidade, a da capela de Santo Amaro. E prepara agora uma outra para devolver o Convento da Graça ao uso público.
Esperávamos um discurso muito mais pensado numa pessoa tão mediática (e que é, claro, acusada pelo presidente da Câmara de Lisboa de buscar apenas a notoriedade pessoal). Quando lhe perguntamos o que o move, diz simplesmente "Eu gosto de viver numa cidade porreira". E o percurso podia ser o de muitos de nós: ao longo da vida foram-lhe surgindo várias "coisa esquisitas", desde não ter espaço para andar de bicicleta e para jogar ao berlinde, até não poder andar nos passeios à vontade por estarem cheios de carros, passando por não o deixarem entrar na discoteca sem nenhum motivo aparente, e como muitos de nós também não achou natural que essas coisas acontecessem.
É claro que é desmoralizante lutar contra uma administração pública prepotente. "O cidadão que quer reivindicar uma coisa, por mais simples que seja, sente-se impotente, e começa a pensar que não vale a pena. E aí é que eu digo 'Desculpe lá mas vale a pena, porque nós temos direitos, temos que fazer qualquer coisa'. O problema é que as pessoas desmoralizam." É um erro: deve-se insistir sempre. "A maior parte das pessoas antes de desistir acaba por fazer uma carta. Tem que se insistir." E não é preciso recorrer a um advogado: "O direito é uma coisa intrínseca, não é preciso conhecer a lei para protestar".
O importante mesmo são as causas, mesmo que pequeninas, e apesar de tudo o melhor é a acção directa: divulgar as discussões públicas e aparecer lá; marcar presença nos centros de decisão, sejam juntas de freguesia ou assembleias municipais; tomar a iniciativa de ocupar aquilo a que temos direito, sejam casas abandonadas para morarmos ou termos outra actividade qualquer, sejam jardins para plantarmos árvores.
Mas já que estamos a falar com um deles, como é que este advogado vê tudo isto?: "Todas as leis resultam do bom senso, a questão está só em aplicá-las. Aí é que está a dificuldade". Claro que as coisas não são fáceis, mesmo para um advogado, e no processo contra o Metro deram-lhe dez dias para responder a um processo que os tribunais tinham demorado três anos a analisar. há outro problema bicudo, que é o de encontrar o culpado: os tribunais atrasam os processos com o argumento de não estarem dirigidos à entidade certa. Mas as coisas começam a mudar aos poucos. E não é uma luta contra o estado, mas a favor dele: o estado somos nós, e portanto tem todo o interesse em que tenhamos um ambiente saudável, qualidade de vida, respeito pelo património e pela saúde pública.
Apesar do optimismo, está a arriscar bastante: os resultados ainda são poucos, e a maior parte das acções ainda não teve decisão final. "Estou desejoso de ver as decisões. Das duas uma: se ganhar uma série de coisas vão abaixo; se perder tenho que pagar as custas." Mas mesmo que perca, sempre foi um passo para que os tribunais e o ministério público se vão habituando à ideia de que a administração pública não tem sempre razão, e que não representa necessariamente os interesses do estado, ou seja, de todos nós. E José Sá Fernandes está cansado, diz que tem de parar por uns tempos para estudar e pôr a cabeça em ordem. E talvez dedicar-se mais ao seu passatempo favorito, que é passear pela cidade com a filha de sete anos.
A conversa termina entre gargalhadas com outra história exemplar. Um dia perguntou a um homem numa rua de Lisboa onde ficava a repartição de finanças: "Vai por aqui em frente; quando encontrar uma figueira vira à esquerda; e quando vir uma nespereira, em frente fica a repartição". José Sá Fernandes diz que só lhe apetecia abraçar o homem ali mesmo, e nós percebemos.
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José Sá Fernandes tornou-se conhecido faz agora dois anos, quando conseguiu embargar as obras do metro no Terreiro do Paço. Tudo começou quando um dia ia a passar por ali, em 1997, e reparou que o Cais das Colunas tinha desaparecido de repente. Não havia nenhum aviso a indicar o que estava a acontecer, mas alguém lhe disse que eram as obras do metro. Descobriu depois que a obra não estava autorizada, não tinha havido concurso público, e nem sequer estava justificada por qualquer estudo; pôs o Metro em tribunal, aproveitando a nova figura da acção popular, que permite a qualquer pessoa pôr um processo em tribunal para defender o ambiente, a qualidade de vida e o património cultural, sem pagar custas judiciais para abrir o processo.
Demorou três anos, mas o Supremo Tribunal Administrativo deu-lhe razão. O Metro acabou por arranjar as licenças e as obras da linha lá continuaram. Mas apesar de tudo foi uma vitória importante. Depois disso já processou, por exemplo, todos os ministérios e várias outras instituições que ocupam as arcadas do Terreiro do Paço para que as libertem para uso do povo. Uma das últimas acções, contra a CML, tenta impedir que se construa o Hotel Ópera, na Avenida da Índia, que vai obstruir uma das vistas mais bonitas da cidade, a da capela de Santo Amaro. E prepara agora uma outra para devolver o Convento da Graça ao uso público.
Esperávamos um discurso muito mais pensado numa pessoa tão mediática (e que é, claro, acusada pelo presidente da Câmara de Lisboa de buscar apenas a notoriedade pessoal). Quando lhe perguntamos o que o move, diz simplesmente "Eu gosto de viver numa cidade porreira". E o percurso podia ser o de muitos de nós: ao longo da vida foram-lhe surgindo várias "coisa esquisitas", desde não ter espaço para andar de bicicleta e para jogar ao berlinde, até não poder andar nos passeios à vontade por estarem cheios de carros, passando por não o deixarem entrar na discoteca sem nenhum motivo aparente, e como muitos de nós também não achou natural que essas coisas acontecessem.
É claro que é desmoralizante lutar contra uma administração pública prepotente. "O cidadão que quer reivindicar uma coisa, por mais simples que seja, sente-se impotente, e começa a pensar que não vale a pena. E aí é que eu digo 'Desculpe lá mas vale a pena, porque nós temos direitos, temos que fazer qualquer coisa'. O problema é que as pessoas desmoralizam." É um erro: deve-se insistir sempre. "A maior parte das pessoas antes de desistir acaba por fazer uma carta. Tem que se insistir." E não é preciso recorrer a um advogado: "O direito é uma coisa intrínseca, não é preciso conhecer a lei para protestar".
O importante mesmo são as causas, mesmo que pequeninas, e apesar de tudo o melhor é a acção directa: divulgar as discussões públicas e aparecer lá; marcar presença nos centros de decisão, sejam juntas de freguesia ou assembleias municipais; tomar a iniciativa de ocupar aquilo a que temos direito, sejam casas abandonadas para morarmos ou termos outra actividade qualquer, sejam jardins para plantarmos árvores.
Mas já que estamos a falar com um deles, como é que este advogado vê tudo isto?: "Todas as leis resultam do bom senso, a questão está só em aplicá-las. Aí é que está a dificuldade". Claro que as coisas não são fáceis, mesmo para um advogado, e no processo contra o Metro deram-lhe dez dias para responder a um processo que os tribunais tinham demorado três anos a analisar. há outro problema bicudo, que é o de encontrar o culpado: os tribunais atrasam os processos com o argumento de não estarem dirigidos à entidade certa. Mas as coisas começam a mudar aos poucos. E não é uma luta contra o estado, mas a favor dele: o estado somos nós, e portanto tem todo o interesse em que tenhamos um ambiente saudável, qualidade de vida, respeito pelo património e pela saúde pública.
Apesar do optimismo, está a arriscar bastante: os resultados ainda são poucos, e a maior parte das acções ainda não teve decisão final. "Estou desejoso de ver as decisões. Das duas uma: se ganhar uma série de coisas vão abaixo; se perder tenho que pagar as custas." Mas mesmo que perca, sempre foi um passo para que os tribunais e o ministério público se vão habituando à ideia de que a administração pública não tem sempre razão, e que não representa necessariamente os interesses do estado, ou seja, de todos nós. E José Sá Fernandes está cansado, diz que tem de parar por uns tempos para estudar e pôr a cabeça em ordem. E talvez dedicar-se mais ao seu passatempo favorito, que é passear pela cidade com a filha de sete anos.
A conversa termina entre gargalhadas com outra história exemplar. Um dia perguntou a um homem numa rua de Lisboa onde ficava a repartição de finanças: "Vai por aqui em frente; quando encontrar uma figueira vira à esquerda; e quando vir uma nespereira, em frente fica a repartição". José Sá Fernandes diz que só lhe apetecia abraçar o homem ali mesmo, e nós percebemos.
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