O Mistério da Esferovite
(revista Livros, Janeiro de 2001)
Está a chegar o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. Já não era sem tempo
Pedro Ornelas
Passados mais de dois séculos, no princípio deste ano poderemos finalmente ver a obra mais longamente aguardada da história de Portugal e talvez, quem sabe, do mundo inteiro o Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. Para além do pormenor da demora, o dicionário da Academia será também uma obra singular: teremos pela primeira vez na história um dicionário normativo e oficial? com a curiosidade suplementar de, ao que tudo indica, se antecipar à entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, substituindo-o, em certa medida, pelo menos no que diz respeito a Portugal. Além disso, devera ser o primeiro dicionário geral da língua portuguesa feito moldes da linguística aplicada moderna (existe já o Dicionário do Português Básico, de Mário Vilela, com objectivos diferentes). Talvez passemos finalmente a ter um dicionário geral pelo menos comparável aos dicionários ingleses.
Enquanto aguardamos e fazemos votos para que seja mesmo desta, fomos dar uma volta pelos dicionários portugueses com uma ajuda da linguista Margarita Correia, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e colaboradora do recente Dicionário Tétum-Português.
Uma das ideias mais correntes sobre os dicionários é a de que registam todas as palavras existentes duma língua. Uma palavra que não vem no dicionário não existe. O dicionário em Portugal é ainda uma espécie de Bíblia, de livro revelado, muitas vezes sem autor mas sempre com alguma autoridade, e quem a puser em causa arrisca-se a ser ignorado. E no entanto, é quase sempre um trabalho de amadores.
O leitor e eu sabemos perfeitamente o que é esferovite, aquele material branco com uma consistência peculiar em que veio embalado, por exemplo, o nosso leitor de CDs. Mas se o leitor se der ao trabalho de procurar essa palavra nos dicionários de português não a encontra, excepto na oitava edição do Porto Editora. E no entanto ela existe certamente e é até vulgar. Então porque é que não aparece? Por causa da maneira como os dicionários são feitos: "Os dicionários reproduzem-se uns aos outros. É muito frequente encontrarmos uma palavra que não figura num dicionário e que "por acaso" não está registada em nenhum dos outros", diz Margarita Correia. Mesmo quando são regularmente actualizados, há sempre uma palavra vulgaríssima que escapa à memória desses senhores obscuros que algures nalgum lugar soturno, imagino, escrevem as entradas dos dicionários. E no entanto, no Lello, por exemplo, resolveram arranjar uma definição para "cor" (com "o" aberto), uma palavra que de facto não existe verdadeiramente - só ocorre juntamente com "de", formando"de cor". O mesmo acontece no Porto Editora.
Como é que se resolve o problema da escolha das palavras que figuram num dicionário geral? Arranjando uma amostra significativa da língua (o chamado "corpus") e verificando quais são as palavras mais frequentes. O primeiro dicionário a fazer isso foi o monumental Oxford English Dictionary, redigido ao longo de setenta anos, entre 1857 e 1928, com o voluntarioso contributo de milhares de britânicos anónimos que foram compilando em fichas as palavras que encontravam nos livros. Hoje em dia as coisas estão muito mais facilitadas, embora não propriamente fáceis, graças aos computadores: reúne-se um grande número de textos em formato digital (se for preciso digitaliza-se) e põe-se as amáveis máquinas a analisá-los segundo os critérios definidos. O dicionário da Academia será o primeiro a ser elaborado desta forma, já usada há muito nos países anglófonos.
Outro problema grave dos dicionários portugueses são as definições. Vejamos por exemplo a palavra "prostituta". Segundo o Lello (1997),uma prostituta é "uma mulher de má vida". E o que é a prostituição? É "o acto ou efeito de prostituir, devassidão; vida desregrada; servilismo. Uso degradante, infame, que se faz de uma coisa". Bom, pelo menos já fiquei a saber que pratico regularmente a prostituição, já que tenho uma forte tendência para uma vida desregrada, embora não seja certamente uma prostituta, porque não sou uma mulher (os prostitutos não existem aqui). Mas podia perfeitamente definir-me como um homem de má vida. E afinal o que é prostituir? É "Entregar à prostituição". Esclarecidos? Outros dicionários (Torrinha, Universal), têm definições ainda mais circulares, em que prostituta é uma mulher que se entrega à prostituição, prostituição é o acto de prostituir-se, e prostituir-se é entregar-se à prostituição. Para José Pedro Machado, erudito autor dum monumental dicionário em doze volumes (1980), prostituta é também uma "mulher pública", o que, convenhamos, se presta a alguma confusão.
As edições do Porto Editora anteriores a 1998 continham esta e outras definições de circularidade perfeita e tautológica, bem como lacunas incompreensíveis. A oitava edição foi revista por uma equipa (com linguistas e informáticos contratados para o efeito mas infelizmente condenados ao anonimato pela editora) que resolveu parte dos problemas. A digitalização do dicionário e a criação da versão electrónica permitiu o confronto do dicionário com textos digitalizados, o que levou ao preenchimento de muitas lacunas. Assim, lá estão finalmente pela primeira vez na história a esferovite, o islâmico e muitas outras palavras difíceis. Uma prostituta passou a ser uma "mulher que se entrega a actividades sexuais mediante remuneração", e a prostituição a "acto ou efeito de fazer comércio de favores sexuais", embora se mantenha, como sentido figurado, a "vida desregrada". Mas os problemas permanecem: uma mulher homossexual é uma lésbica, certo? Para a Porto Editora não: é uma lesbiana (já tinham ouvido falar?). E uma guitarra, o que é? Em primeiro lugar é um "peixe seláquio (...) também conhecido por rabeca e viola", e só depois um instrumento musical.
Por falar em seláquios, sabem o que é um tubarão, esse peixe maléfico para uns, nem tanto para outros? Eu diria talvez que é um peixe mauzão com uma barbatana dorsal e uma grande dentuça que come de vez em quando um surfista australiano. Mas não: para o Universal, este é o "nome comum dos peixes seláquios, caracterizados pela sua grande voracidade". Ah sim? E os seláquios, são o quê? "Ordem de peixes cartilagíneos, de escamas brilhantes, a que pertence o esqualo, a tremelga, etc." Fiquei a saber que os tubarões têm escamas. Nunca tinha dado por isso. O Porto Editora diz que são "peixes seláquios, de grande porte e muito vorazes, frequentes nos mares quentes". Apesar de também se pescarem ali ao largo de Sesimbra, ouvi dizer. Quanto aos seláquios, são peixes "com esqueleto cartilagíneo, boca ventral e, na maioria dos casos, com cinco pares de fendas branquiais". Nestas fendas branquiais já tinha reparado.
Vejamos agora o que dizem os dicionários britânicos, considerados os melhores -- e não fazem mais que a sua obrigação, considerando os rios de dinheiro que as editoras ganham com os milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Para o Longman Dictionary of Contemporary English, um dicionário que faz milagres (é o que eu uso sempre como tradutor) um "shark" é "A large fish with several rows of very sharp teeth which is sometimes considered dangerous to humans". Mas esse é um dicionário especialmente concebido para não-anglófonos, dirão alguns. Sim, mas o Oxford Paperback Dictionary, uma versão moderna e compacta do primeiro Oxford, não é. Diz na capa "Suitable for home & office", e lá um "shark" é "A large sea fish with a triangular fin on its back, some kinds of which are dangerous". Nada de seláquios -- o nosso peixe é definido por duas das suas características mais notórias para a maior parte das pessoas: os dentes e a barbatana dorsal triangular.
E "prostitute"? É "A woman who engages in sexual intercourse for money", ainda segundo o Oxford Paperback, que admite também a versão homossexual masculina da actividade. Para o Longman, é "someone, especially a woman, who earns money by having sex with people who pay for it". Está melhor.
Estes exemplos ilustram bem a diferença abissal entre dois tipos de definição: por um lado, temos definições mal redigidas, por vezes circulares e tautológicas (o caso de "prostituta" em todos os dicionários excepto o Porto Editora) ou que recorrem a conceitos científicos descabidos num dicionário geral de língua ("tubarão"), e ainda por cima de rigor duvidoso. Com a agravante de recorrerem a conceitos mais complicados do aquele que estão a descrever, e de serem assim obrigados a incluir palavras que de outro modo seriam talvez dispensáveis, como "seláquio". Pelo contrário, nos dicionários britânicos as definições são simples e descritivas. O Longman dá-se mesmo ao luxo de usar para a maior parte das definições um conjunto previamente definido de apenas duas mil palavras.
Mas há outras coisas que faltam nos dicionários portugueses, como as chamadas colocações. Por exemplo, falar de, falar com, falar para, são coisas diferentes. E não penso de que. Ou então coisas como "lauto banquete" e "vegetação luxuriante", ou seja palavras que costumam aparecer juntas. E também os exemplos de uso, as expressões idiomáticas, os registos de língua a que as palavras pertencem (por exemplo "calão", "ofensivo", "formal", "antiquado", etc.).
Tudo isto faz com que os dicionários de língua portuguesa sejam de utilização difícil para os lusófonos, e muitas vezes incompreensíveis para quem não tem o português como língua materna - o que qualquer professor de português para estrangeiros pode confirmar.
Ao contrário dos dicionários britânicos, que resultam de projectos de investigação universitária, como acontece com os da Longman, da Collins ou da Oxford, em Portugal reina o amadorismo e isso reflecte-se na má qualidade dos dicionários. Ou seja, os linguistas portugueses não se envolvem muito na produção de dicionários -- com a excepção recente do Porto Editora, onde mesmo assim há muito trabalho para fazer. Porquê? "E recíproco", diz Margarita Correia. "As editoras não se têm preocupado em ter linguistas a fazerem dicionários. Há um bocado a ideia de que não é preciso grande especialização para se fazer dicionários, que qualquer pessoa é capaz de fazer um dicionário, e além disso a mão de obra quanto mais barata melhor. Por outro lado, não tem havido grande interesse da parte dos linguistas - há aquela ideia de que os nossos dicionários são muito maus. Não temos cursos de especialização em lexicografia, ao contrário do que acontece noutros países. As primeiras disciplinas de lexicologia só foram criadas na segunda metade da década de 80, e ainda hoje só são leccionadas nas licenciaturas em Linguística, que têm pouquíssimos alunos por falta de mercado de trabalho."
O dicionário da Academia parece estar no segredo dos deuses (não se percebe bem porquê), mas espera-se pelo menos uma pequena revolução. Oremos.
Comments:
I read over your blog, and i found it inquisitive, you may find My Blog interesting. My blog is just about my day to day life, as a park ranger. So please Click Here To Read My Blog
Get any Desired College Degree, In less then 2 weeks.
Call this number now 24 hours a day 7 days a week (413) 208-3069
Get these Degrees NOW!!!
"BA", "BSc", "MA", "MSc", "MBA", "PHD",
Get everything within 2 weeks.
100% verifiable, this is a real deal
Act now you owe it to your future.
(413) 208-3069 call now 24 hours a day, 7 days a week.
Enviar um comentário
Call this number now 24 hours a day 7 days a week (413) 208-3069
Get these Degrees NOW!!!
"BA", "BSc", "MA", "MSc", "MBA", "PHD",
Get everything within 2 weeks.
100% verifiable, this is a real deal
Act now you owe it to your future.
(413) 208-3069 call now 24 hours a day, 7 days a week.
