Sievers, o homem transparente (publicado na "Livros")
“Era eu o homem com sorte. Caramba, convivera com Wolfgang Sievers e éramos amigos.” É assim que Jorge Calado termina a biografia de Sievers (“o homem com sorte”, entre outras coisas por ter escapado milagrosamente aos nazis), um dos textos deste livro-catálogo editado com a retrospectiva no Arquivo Fotográfico da CML.
Não é caso para menos. A história do fotógrafo alemão naturalizado australiano, escrita num português límpido, atravessa grande parte do século XX (Sievers nasceu em 1913) e é vivida por um personagem que encarna com uma honestidade desarmante alguns dos poucos ideais que ainda vão sobrevivendo ao século que termina. Em 1967, em plena guerra do Vietname em que a Austrália se envolvera, Sievers exibe numa montra de Melbourne uma instalação: “Grandes panos negros, o cartaz duma fotografia (não sua) dum soldado americano exibindo, como se fora um troféu, a cabeça dum vietnamita e a seguinte declaração: ‘Eu, Wolfgang Sievers, vítima da perseguição nazi, prisioneiro da Gestapo, voluntário da AIF e RAAF 1939, voluntário do Exército Australiano de 1942 a 1946, protesto: contra esta guerra não declarada; contra a lotaria da mobilização; contra a prisão dos objectores de consciência cuja atitude foi consagrada no Julgamento de Nuremberga como um dever de todos os homens.”
Judeu “malgré lui” - a mãe, cristã, era filha de pais judeus, e a condição de judeu transmite-se por via materna - Sievers vem para Lisboa em 1933 a conselho do pai, que pressentia o perigo da ascensão nazi, e conserva desse período recordações deliciosas, como uma “Guia Nocturna do Amor Livre” que “não deve faltar a qualquer homem evitando desta maneira a prostituição clandestina nas ruas da capital”, e a memória do “namoro de gargarejo” com a rapariga da varanda em frente: “Nesse tempo só se podia falar com a menina a partir da rua - com toda a gente a ouvir (…) o máximo que consegui foi mostrar-lhe um ramo de flores”. São de Portugal a maior parte das fotografias anteriores à II Guerra aqui reproduzidas, entre elas a da dita menina à varanda, acompanhada do comentário que se reproduz parcialmente acima.
“É irrelevante saber se estas fotografias representam apenas habilidade técnica, arte ou ambas. Os curtos textos que as acompanham na exposição são igualmente importantes”, escreve Sievers. De facto, as legendas dialogam com as imagens, desconstruindo-as alegremente. Um dos primeiros exemplos aparece numa fotografia da Igreja Alemã de Lisboa (1934): “Levei horas para tirar esta fotografia, tudo por causa das três bandeiras: tive de esperar muito tempo até que a bandeira portuguesa ficasse bem desfraldada, a alemã só um pouco e a da suástica nazi nada mesmo.” As legendas são reproduzidas no final do livro, tendo Calado optado por remeter o leitor para os seus textos nos casos em que são neles mencionadas - e é pena que não tenham sido reproduzidas na íntegra.
Quando o percurso do fotógrafo estabiliza na fotografia industrial, já na Austrália, depois de ter passado pela fotografia de arquitectura e de publicidade, a desconstrução chega a tornar-se desconcertante, mesmo para uma fotografia que se assume não-realista, limpa e encenada, nos antípodas do “neo-realismo” de um Sebastião Salgado. Por exemplo, uma fotografia de impecáveis bobinas de lã tem como legenda: “As condições nesta fábrica variavam entre o razoável e o horroroso (…) ainda hoje tenho nos ouvidos a barulheira insuportável das máquinas (…) muitos dos operários preferiam passar os intervalos do almoço dobrados sobre as máquinas.”
As fábricas eram quase sempre fotografadas de noite, previamente limpas e arrumadas e com os operários devidamente barbeados - Sievers andava sempre com uma gilette para o caso de ser preciso. Por vezes as imagens são funcionalmente absurdas: é o caso da fotografia em que duas metades duma roda dentada gigante estão colocadas uma sobre a outra; ou a de um desenhador industrial fotografado de baixo a desenhar sobre um vidro transparente, com o negativo impresso ao contrário de modo a que se consigam ler as letras do desenho.
Com a cor, as fotografias ganham uma dimensão cinematográfica - o amontoador de bauxite (fotografado imediatamente antes do nascer do sol porque “durante o dia não tinha graça nenhuma”), a plataforma petrolífera (de que Sievers opta por fotografar a parte de baixo batida pelas ondas) ou a escavadora de arrasto (em que o fotógrafo tenta, e c
O humor de Sievers não esconde uma certa má consciência em relação à sua actividade - só não fica claro se isso é um sinal dos tempos (a chegada da era Greenpeace) ou se é mesmo um mal estar acumulado - que o leva finalmente a desistir da fotografia profissional, já perto dos oitenta anos.
O livro termina com um curto ensaio, também de Calado, sobre “Wolgang Sievers e o renascimento da fotografia industrial”. Ficam duas dúvidas complementares: até que ponto a notoriedade de Sievers se deve a um (tardio) reconhecimento como “artista” (e isto sem pôr em causa o seu enorme talento), apesar de quase toda a sua produção resultar de encomendas de empresas industriais e do estado australiano - para mais tendo em conta o destino que tiveram algumas fotografias (por exemplo, uma delas foi parcialmente aproveitada para a capa dum relatório anual de contas da Shell Australia); e se não haverá muitos outros bons fotógrafos industriais (inclusive em Portugal) que não são reconhecidos como tal apenas porque não tiveram a mesma oportunidade.
Linha de Vida - A Fotografia de Wolfgang Sievers
Jorge Calado
Arquivo Fotográfico da CML
Não é caso para menos. A história do fotógrafo alemão naturalizado australiano, escrita num português límpido, atravessa grande parte do século XX (Sievers nasceu em 1913) e é vivida por um personagem que encarna com uma honestidade desarmante alguns dos poucos ideais que ainda vão sobrevivendo ao século que termina. Em 1967, em plena guerra do Vietname em que a Austrália se envolvera, Sievers exibe numa montra de Melbourne uma instalação: “Grandes panos negros, o cartaz duma fotografia (não sua) dum soldado americano exibindo, como se fora um troféu, a cabeça dum vietnamita e a seguinte declaração: ‘Eu, Wolfgang Sievers, vítima da perseguição nazi, prisioneiro da Gestapo, voluntário da AIF e RAAF 1939, voluntário do Exército Australiano de 1942 a 1946, protesto: contra esta guerra não declarada; contra a lotaria da mobilização; contra a prisão dos objectores de consciência cuja atitude foi consagrada no Julgamento de Nuremberga como um dever de todos os homens.”
Judeu “malgré lui” - a mãe, cristã, era filha de pais judeus, e a condição de judeu transmite-se por via materna - Sievers vem para Lisboa em 1933 a conselho do pai, que pressentia o perigo da ascensão nazi, e conserva desse período recordações deliciosas, como uma “Guia Nocturna do Amor Livre” que “não deve faltar a qualquer homem evitando desta maneira a prostituição clandestina nas ruas da capital”, e a memória do “namoro de gargarejo” com a rapariga da varanda em frente: “Nesse tempo só se podia falar com a menina a partir da rua - com toda a gente a ouvir (…) o máximo que consegui foi mostrar-lhe um ramo de flores”. São de Portugal a maior parte das fotografias anteriores à II Guerra aqui reproduzidas, entre elas a da dita menina à varanda, acompanhada do comentário que se reproduz parcialmente acima.
“É irrelevante saber se estas fotografias representam apenas habilidade técnica, arte ou ambas. Os curtos textos que as acompanham na exposição são igualmente importantes”, escreve Sievers. De facto, as legendas dialogam com as imagens, desconstruindo-as alegremente. Um dos primeiros exemplos aparece numa fotografia da Igreja Alemã de Lisboa (1934): “Levei horas para tirar esta fotografia, tudo por causa das três bandeiras: tive de esperar muito tempo até que a bandeira portuguesa ficasse bem desfraldada, a alemã só um pouco e a da suástica nazi nada mesmo.” As legendas são reproduzidas no final do livro, tendo Calado optado por remeter o leitor para os seus textos nos casos em que são neles mencionadas - e é pena que não tenham sido reproduzidas na íntegra.
Quando o percurso do fotógrafo estabiliza na fotografia industrial, já na Austrália, depois de ter passado pela fotografia de arquitectura e de publicidade, a desconstrução chega a tornar-se desconcertante, mesmo para uma fotografia que se assume não-realista, limpa e encenada, nos antípodas do “neo-realismo” de um Sebastião Salgado. Por exemplo, uma fotografia de impecáveis bobinas de lã tem como legenda: “As condições nesta fábrica variavam entre o razoável e o horroroso (…) ainda hoje tenho nos ouvidos a barulheira insuportável das máquinas (…) muitos dos operários preferiam passar os intervalos do almoço dobrados sobre as máquinas.”
As fábricas eram quase sempre fotografadas de noite, previamente limpas e arrumadas e com os operários devidamente barbeados - Sievers andava sempre com uma gilette para o caso de ser preciso. Por vezes as imagens são funcionalmente absurdas: é o caso da fotografia em que duas metades duma roda dentada gigante estão colocadas uma sobre a outra; ou a de um desenhador industrial fotografado de baixo a desenhar sobre um vidro transparente, com o negativo impresso ao contrário de modo a que se consigam ler as letras do desenho.
Com a cor, as fotografias ganham uma dimensão cinematográfica - o amontoador de bauxite (fotografado imediatamente antes do nascer do sol porque “durante o dia não tinha graça nenhuma”), a plataforma petrolífera (de que Sievers opta por fotografar a parte de baixo batida pelas ondas) ou a escavadora de arrasto (em que o fotógrafo tenta, e c
onsegue, transmitir “os sons dramáticos da indústria mineira”).

O humor de Sievers não esconde uma certa má consciência em relação à sua actividade - só não fica claro se isso é um sinal dos tempos (a chegada da era Greenpeace) ou se é mesmo um mal estar acumulado - que o leva finalmente a desistir da fotografia profissional, já perto dos oitenta anos.
O livro termina com um curto ensaio, também de Calado, sobre “Wolgang Sievers e o renascimento da fotografia industrial”. Ficam duas dúvidas complementares: até que ponto a notoriedade de Sievers se deve a um (tardio) reconhecimento como “artista” (e isto sem pôr em causa o seu enorme talento), apesar de quase toda a sua produção resultar de encomendas de empresas industriais e do estado australiano - para mais tendo em conta o destino que tiveram algumas fotografias (por exemplo, uma delas foi parcialmente aproveitada para a capa dum relatório anual de contas da Shell Australia); e se não haverá muitos outros bons fotógrafos industriais (inclusive em Portugal) que não são reconhecidos como tal apenas porque não tiveram a mesma oportunidade.
Linha de Vida - A Fotografia de Wolfgang Sievers
Jorge Calado
Arquivo Fotográfico da CML
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