Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Olaias (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado) 

Enquanto que a norma nos bairros sociais é a construção em altura, aqui as coisas mudam ironicamente: à beira dos enormes blocos de apartamentos da classe média assinados Tomás Taveira, os discretos prédios de seis pisos do bairro social parecem minúsculos. Mais uma aposta no regresso ao urbanismo tradicional dos quarteirões, tal como nas últimas fases dos bairros dos Alfinetes e Marquês de Abrantes – blocos com comércio no piso térreo, dispostos em U ou em L, neste caso com a excepção dos seis prédios em V da primeira fase. Virada para a rotunda das Olaias, uma passagem por baixo do bico do V – muito bonito, diga-se de passagem, com as suas varandas triangulares ligadas por uma coluna – dá acesso ao espaço interior do bairro.
Estes 63 fogos serviram para realojar, entre 1996 e 1997, parte dos habitantes do bairro de lata do Monte Coxo, que ficava ali perto, entre a Avenida Afonso Costa e a Rua Américo Durão. Neste terreno devoluto, propriedade da CML há várias décadas, foi aparecendo ao longo da segunda metade dos anos 1960 uma mancha de barracas e casas de alvenaria construídas por pessoas que tinham sido desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira travessia do Tejo em Lisboa. O bairro foi aumentando com os desalojados pela construção da Avenida Afonso Costa, e ainda com a chegada de cabo-verdianos e ciganos. A mistura étnica contribuía para os conflitos, e os problemas subsistiram, tanto no bairro das Olaias como nos Alfinetes, onde foi realojada maior parte dos restantes moradores do Monte Coxo.
Os restantes realojados desta primeira fase vieram dum bairro conhecido como o Comboio das Olaias, que ficava entre o Monte Coxo e a rotunda das Olaias, mesmo ao pé do novo bairro. Era um conjunto de casas pré-fabricadas construídas pela CML em 1982 para realojar famílias cabo-verdianas que tinham ocupado um barracão da Companhia Portugal e Colónias, em Xabregas, logo a seguir ao 25 de Abril.
Nos prédios da segunda fase deste bairro social, separados dos da primeira fase pelos blocos degradados da Cooperativa Portugal Novo, habitados maioritariamente por ciganos, foi realojada, além de algumas famílias do Monte Coxo, uma parte dos habitantes dos antigos bairros de lata da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos, ambos nas imediações do Areeiro, e ainda algumas famílias da Quinta dos Embrechados. Grande parte da população da Quinta da Holandesa e da Quinta dos Passarinhos eram pessoas de origem indiana, quase todas oriundas da mesma aldeia perto da cidade de Diu, de onde passaram para Moçambique e finalmente para Portugal. Pertencentes à mesma casta de pedreiros, formam uma comunidade de religião hindu muito coesa, pacífica e organizada e muito fiel às suas tradições, apesar de em muitos casos estarem separados da Índia por mais de três gerações – são já netos dos que emigraram para África. Nas suas novas casas as imagens de Lakshmi, a esposa de Vishnu, com os seus quatro braços representando a prosperidade, a pureza, a castidade e a generosidade, coexistem com as de Nossa Senhora, numa manifestação típica desta religião que aceita todas as outras como manifestação do mesmo espírito divino, e nos pátios entre os prédios podem ver-se as suas árvores sagradas, que fizeram questão de plantar.
No conjunto, as Olaias são um pequeno bairro multiétnico, em que a principal preocupação dos técnicos da Gebalis vai para as relações nem sempre fáceis entre cabo-verdianos, portugueses, indianos e ciganos. Tal como noutros bairros que foram entregues à gestão da empresa, foram feitos melhoramentos para evitar a futura degradação dos edifícios, nomeadamente o fecho das escadas.

João Nascimento Costa e Quinta do Lavrado

Ao chegarmos ao fim da rua João Nascimento Costa, do lado direito, vemos os novos prédios de habitação social, um conjunto que fecha pelo lado sudoeste o pequeno planalto da Picheleira. São oito blocos iguais de sete pisos com 136 fogos, pintados de ocre e cinzento, e ainda um outro amarelo com mais um piso, que remata o conjunto. Os pisos térreos ficam para o comércio, fazendo com que este pedaço de rua passe a concentrar a grande maioria das lojas da rua. Do lado oposto ficam os acessos para o estacionamento subterrâneo, com 127 lugares.
Quanto à Quinta do Lavrado, é uma grande urbanização de 12 edifícios com 263 fogos, construída mesmo ao lado da antiga Curraleira, por detrás do cemitério do Alto de S. João. Seis prédios paralelos à nova via em construção que vai desembocar na rotunda das Olaias e outros seis perpendiculares a estes formam dois grandes M em que o espaço entre as pernas das letras é ocupado por grandes pátios elevados sobre a rua e virados para a colina da Picheleira, a nordeste. De todas as urbanizações geridas pela Gebalis, esta é que tem a toponímia mais esotérica: Via B2, RTB9, lotes 1 a 12.

A Curraleira

A história do bairro de lata mais mediático dos últimos tempos, logo a seguir ao Casal Ventoso, foi-nos contada por Virgílio Pires Lopes, presidente da Junta de Freguesia de S. João e morador na zona há mais de sessenta anos.
Toda a encosta entre o Alto de S. João e o Alto do Pina era até há poucas décadas ocupada por várias propriedades rurais: as quintas da Curraleira, do Pinheiro, da Argilinha, do Cid, da Corte Larga, entre outras. O surto de industrialização da cidade de Lisboa em finais do século XIX atraiu uma vaga migratória de camponeses, vindos sobretudo das Beiras e Trás-os-Montes, que se foram instalando na periferia destas quintas. Mais tarde, tal como noutros locais da cidade, foram os próprios industriais a criarem bairros para os seus operários. Ainda hoje existem na zona, sobretudo nas ruas Barão de Sabrosa, António Luís Inácio e Sabino de Sousa, perto de 40 pátios e vilas que testemunham esta migração, como os pátios do Mansinho e da Dona Cândida ou as vilas Adelaide, Palmira e Alegre. Recorde-se que o limite oficial da cidade de Lisboa foi definido em meados do século XIX por uma estrada de circunvalação que contornava a cidade desde Alcântara até à Cruz da Pedra, perto de Santa Apolónia, passando pela actual Rua Morais Soares, ao longo da qual uma série de barreiras alfandegárias fiscalizam os impostos sobre os produtos alimentares que entravam na cidade.
Os operários que moravam nas vilas e nos pátios acumulavam o trabalho nas fábricas com o cultivo de hortaliças nas antigas quintas. Com o tempo aí foram surgindo barracões para guardar utensílios agrícolas, e mais tarde casas de habitação. Em alguns casos os camponeses nunca deixaram de sê-lo, trocando simplesmente as terras da sua aldeia por estas na então periferia da cidade. Ainda hoje há residentes na freguesia, já septuagenários, que nasceram nessas quintas, filhos de camponeses vindos da região da Pampilhosa da Serra, e algumas parcelas de terreno ainda lhes pertencem.
Por alturas do final da II Guerra Mundial chegou uma nova vaga de moradores, vindos da Quinta das Comendadeiras, onde hoje fica a Escola Patrício Prazeres, por cima do Convento de Santos-o-Novo, de onde tinham sido desalojados por um incêndio. O bairro continuou a crescer com ajuda de africanos das ex-colónias e ciganos, até que os seus cerca de 4000 habitantes ocuparam todo o espaço dantes cultivado. Nos últimos 15 anos o tráfico de heroína tinha aos poucos dominado a Curraleira, atraindo toda uma população de toxicodependentes que foi permanecendo em toda a área da freguesia de S. João, sobretudo após o final do Casal Ventoso.

E agora?

A população da Curraleira, o último grande bairro de lata de Lisboa, foi realojada em 2001 nestes dois bairros, e ainda na última fase do bairro dos Alfinetes, em Chelas. É natural a expectativa quanto ao que irá acontecer neste realojamento massivo duma população pouco escolarizada, com muitas famílias monoparentais, graves problemas de toxicodependência e dificuldades de inserção social. O apoio institucional de que muitas pessoas dependem nem sempre parece ser uma solução.
Quando passamos no bairro Nascimento Costa, as técnicas da Gebalis Paula Coelho e Paula Pina descobrem um grande espaço destinado a um equipamento social arrombado e ocupado por toxicodependentes. Aqui, mais uma vez, a grande preocupação é a manutenção dos espaços comuns dos prédios, que sem um uso definido correm o risco de se degradarem. É o caso das grandes varandas comuns debruçadas sobre a grande via em construção lá em baixo.
Na Quinta do Lavrado a situação repete-se. Desta vez o problema são os grandes pátios abertos entre os prédios. São espaços potencialmente agradáveis mas, mais uma vez, a ausência de um uso definido – nem sequer bancos têm – torna-os numa terra de ninguém em risco de degradação rápida.


Carlos Botelho

O bairro Carlos Botelho fica na rua do mesmo nome, do lado oposto à Rua João Nascimento Costa e, tal como o bairro construído nesta última rua, está perfeitamente integrado na malha urbana da cidade, onde ocupou um espaço no limite natural da Picheleira. É um conjunto de 20 prédios brancos de quatro e seis pisos, dispostos perpendicularmente entre si, com 271 fogos que serviram para realojar dos habitantes de dois bairros de lata ali existentes, a Quinta dos Embrechados e o Casal do Pinto, e ainda algumas famílias da Curraleira.

A Quinta dos Embrechados

A actual urbanização foi construída no sítio onde ficava a Quinta dos Embrechados, uma propriedade rural expropriada pela CML nos anos 1930 para a construção duma avenida que nunca apareceu, e que, tal como aconteceu noutros casos semelhantes, foi sendo ocupada por pessoas que cultivavam as hortas à volta das suas casas. Em 1974 juntaram-se às vinte e tal famílias que ali viviam outras tantas, que ocuparam o antigo solar da quinta e acabaram por formar uma cooperativa integrada no SAAL, um projecto de realojamento que teve os seus anos de glória nos anos a seguir ao 25 de Abril. Mas coisas não correram totalmente bem – apenas uma parte dos habitantes dos Embrechados conseguiriam lugar nas casas construídas pela cooperativa. Os restantes foram realojados na Flamenga e nas Olaias quando uma parte do bairro de lata foi demolida para a construção da primeira fase da urbanização, em 1997, e os outros acabaram por ser realojados dois anos depois no local onde já moravam.

O Casal do Pinto

Separado da Quinta dos Embrechados por um pequeno vale, o Casal do Pinto era um bairro muito diferente. A ocupação terá começado nos anos 1940, com famílias oriundas na sua maioria das regiões de Lamego e Viseu. Quando começou a ser demolido, em 1999, moravam lá 337 famílias, na sua maioria socialmente integradas, incluindo trabalhadores de empresas como a PT, os CTT e a TAP, bancários e empregados da hotelaria e comércio. Além de um jardim de infância, havia o Clube Real Olímpico da Picheleira, onde os moradores podiam praticar ténis de mesa, futebol e atletismo, além de ser o grande local de convívio do bairro. A maioria dos habitantes do Casal do Pinto foram realojados no bairro Carlos Botelho, onde coabitam com os seus rivais dos Embrechados, e os restantes no bairro do Armador e nas Olaias.

Três populações rivais

O convívio entre os habitantes oriundos dos três bairros de lata não tem sido fácil, conta-nos Paula Coelho, coordenadora do Gabinete das Olaias, responsável pela manutenção destes edifícios. As pessoas do Embrechados, muitos delas de etnia cigana, são mal vistas pelas do Casal do Pinto, maioritárias, e a chegada das famílias da muito mal afamada Curraleira acabou por unir as outras duas populações contra elas. Apesar disso, dos quatro bairros geridos pelo Gabinete das Olaias, este parece ser o que suscita menos preocupações aos técnicos da Gebalis.
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