Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Flamenga (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado) 

Aqui estão bem representadas as atribulações e contradições de todo o processo de urbanização de Chelas. É um espaço amplo, desafogado, onde as construções ocuparam uma das linhas de cumeada do vale, ligeiramente inclinada para nordeste. As duas ruas principais seguem as bordas da cumeada, com poucas ligações transversais, o que contribui para que este seja um bairro muito pouco pedonal. A quase ausência de comércio local acentua-lhe o carácter de bairro virado para uso do automóvel. O novo centro comercial do Feira Nova e o parque da Bela Vista vieram preencher as funções comercial e de lazer, e a construção, que deverá começar em breve, das novas instalações do semanário Expresso e da Hemeroteca Municipal nas imediações da rotunda da Bela Vista, no prolongamento da Avenida dos Estados Unidos da América, trará a função laboral, completando finalmente o processo – uma lacuna que tarda numa urbanização pensada desde o início com base no princípio de separação de funções.
Numa volta de carro, como não podia deixar de ser, Luís Brás, director de Engenharia da Gebalis, conduz-nos pelo bairro, acompanhado pela técnica Consuelo Leite e pela coordenadora do gabinete local, Ana Isabel Palma. Passando por um primeiro bloco, que ignoramos por ser de propriedade de uma cooperativa de funcionários da Carris, e seguimos pela Avenida Avelino Teixeira da Mota, onde situa o núcleo mais antigo: um conjunto de edifícios camarários semelhantes a outros existentes noutros locais da cidade, prédios de cinco pisos com seus característicos telhados de duas águas. São 470 fogos construídos entre 1981 e 1987 para alojar um conjunto heterogéneo de pessoas: funcionários da CML e da Polícia Municipal, e também habitantes de barracas no próprio local.
As fases seguintes do bairro, construídas até aos princípios dos anos 90, formam um conjunto bastante homogéneo de prédios cor de rosa e amarelos de seis pisos, dispostos em linhas paralelas no sentido do relevo ao longo de duas grandes vias longitudinais paralelas, a Rua Ferreira de Castro e a Avenida Arlindo Vicente. Na confluência desta com a Rua Ferreira de Castro juntam-se-lhes duas torres de nove pisos, uma das quais pertence agora a uma cooperativa de funcionários da CML. Uma via transversal, a Rua Luísa Neto Jorge, fecha o conjunto, contornando a escola primária. Para sul, um grande terreno vazio aguarda uma hipotética escola preparatória que não se sabe se virá a existir.
For a deste conjunto fica a única nota dissonante: um bloco conhecido na Gebalis como Malha H mas que figura nos documentos como Matriz H. São dois grandes edifícios paralelos de sete pisos que albergam um espaço interior altamente cenográfico, com grandes galerias exteriores a ligá-los entre si ao nível dos pisos superiores. O que nos ocorre logo é que uma superprodução musical ao estilo West Side Story resultaria muito bem ali, mas os técnicos da Gebalis não acham piada nenhuma à ideia: a Malha H destoa na aparente pacatez do bairro. Aquele espaço comum no interior é uma dor de cabeça, como são todos os espaços comuns nos bairros sociais. Se aquilo fosse um condomínio privado a solução era simples, fechava-se o espaço interior, diz Luís Brás, e ocorre-nos mais uma ideia perversa: aquela é precisamente a configuração do Páteo Bagatela, uma urbanização de luxo nas Amoreiras que tem sido um sucesso apesar dos preços exorbitantes. A diferença poderá mesmo aí – o que resulta para a classe média-alta não resulta num bairro social. E no entanto é uma pena: todo o comércio do bairro está concentrado neste grande pátio que merecia melhor destino. O facto de as lojas não estarem ao nível do pátio dificulta tudo, mas não é difícil imaginar como aquele espaço seria mais agradável se tivesse qualquer coisa a preenchê-lo. Assim é como uma terra de ninguém.
Neste bairro, como em outros que foram entregues à gestão da Gebalis, a empresa tem feito não só a manutenção dos edifícios como tentado colmatar uma série de deficiências comuns aos prédios de habitação social construídos nos últimos anos: fecho escadas abertas que provocam a degradação rápida dos edifícios, fecho de varandas, impermeabilização, pinturas exteriores.

As origens

As pessoas realojadas nas Flamengas vieram na sua maioria do Bairro do Relógio, num total de 500 famílias, e as restantes de outros bairros mais pequenos da zona da Avenida Gago Coutinho – Quinta da Montanha, Quinta da Holandesa, Quinta da Noiva, Quinta dos Passarinhos.
O Bairro do Relógio era um dos maiores bairros precários da cidade de Lisboa, e devia o nome à proximidade da rotunda do mesmo nome, com o seu belo relógio de relva, entretanto desaparecido. As primeiras 750 casas foram construídas em 1965 para albergar as famílias desalojadas do vale de Alcântara pela construção dos acessos à primeira Ponte sobre o Tejo, a que se juntariam, nos dois anos seguintes, outras 400 para albergar populações de bairros de lata. Depois chegariam mais pessoas, vindas das ex-colónias. Segundo as últimas estimativas antes do desaparecimento do bairro, viviam lá mais de 7 mil pessoas. O Relógio tornou-se, com o tempo, não propriamente um barril de pólvora, mas pólvora mesmo. Os problemas sociais foram agudizando-se pela sobreocupação das casas, pelos conflitos étnicos e, finalmente, pela droga: nos seus últimos tempos o bairro tornou-se de tal forma conhecido como local de tráfico de heroína que até mudou de nome, passando a ser mais conhecido por Cambodja, numa evocação das origens orientais desta droga. As caracterizações da população eram catastróficas: baixo nível de escolaridade, conflitualidade entre pessoas de origens sociais e étnicas diversas, desemprego, toxicodependência, alcoolismo, terra de ladrões, prostitutas e traficantes de heroína. Ironicamente, uma mesma pessoa, o antigo presidente da CML Nuno Abecasis, esteve intimamente ligada ao nascimento e ao desaparecimento do Relógio. Nos anos 60 foi ele o responsável, na qualidade de quadro da Sorefame, pela concepção do bairro, e vinte anos depois, já no final do seu mandato à frente da Câmara, foi ele a promover os primeiros realojamentos. Grande parte dos habitantes do Relógio foram realojados nos blocos virados para o Parque da Bela Vista, no início dos anos 90.
Os restantes moradores realojados nas Flamengas vieram essencialmente dum conjunto de pequenos bairros precários que existiam nas imediações do actual bairro, a Quinta da Bela Vista e a Quinta da Flamenga, e em menor número, de um outro conjunto de bairros de lata que se estendia ao longo da linha de comboio, entre as traseiras do Areeiro e das Olaias: quintas da Montanha, da Noiva, dos Passarinhos e da Holandesa.

Um silêncio perturbador

Se há problemas sociais nas Flamengas, eles estão muito dissimulados, diz Consuelo Leite, uma das técnicas do gabinete local da Gebalis, que admite não ter uma imagem precisa da população do bairro. “Só contactamos com a população mais problemática”, diz. Mas “há problemas camuflados” que só se tornam visíveis para os elementos do gabinete quando sabem de alguma busca policial.
A verdade é que, num bairro que quase não dispõe de espaços de convívio – não há comércio, nem sequer um simples café ou mercearia, à excepção dos estabelecimentos da chamada Malha H – é natural que os problemas não se manifestem. E é irónico que, sendo este o único dos bairros do Vale de Chelas que tem acesso fácil ao Parque da Bela Vista – que ocupa a antiga quinta do mesmo nome e inclui o antigo solar, datado dos séculos XVII e XVIII – a população quase não o utilize.
Não é por acaso que a Malha H é a grande fonte de preocupação da Gebalis. O grande pátio interior acaba por ser o único espaço de convialidade (e conflitualidade) do bairro, com o seu conjunto de pequenas lojas – dois cafés, dois talhos e duas mercearias –, e também o maior espaço comum, com todos os problemas que isso acarreta. “A presença dos cafés favorece o aparecimento de actividades menos lícitas”, reconhece Paula Coelho, outra técnica da Gebalis que trabalhou durante alguns anos no bairro. “Aquilo é de tal forma labiríntico que a polícia não conseguia apanhar absolutamente ninguém nas rusgas”, recorda.
Este bloco espelha um pouco todos os problemas e contradições da habitação social do vale de Chelas. Das boas intenções – tentar criar um espaço comunitário que fomentasse o convívio que existia nos bairros de origem – aos resultados – um espaço comum que acaba por ser uma fonte de conflitos – vai um abismo. E a contradição principal, uma espécie de pecado original de Chelas, é o facto de se ter feito realojamentos em massa de populações de bairros de lata em edifícios que não foram pensados para esse fim. Finalmente, outra questão fundamental – as ideias sobre como se deve fazer o realojamento têm oscilado entre duas tendências: uma que entende que é essencial preservar as relações sociais existentes nos bairros de origem, e outra que põe a tónica na necessidade de reintegração social, promovendo a mistura entre grupos sociais diversos, intercalando habitação social com habitação de venda livre de modo a atrair as classes médias. A primeira posição encontra mais eco entre os sociólogos – que por sua vez influenciaram os arquitectos responsáveis – e a segunda entre os urbanistas. De qualquer modo, o bairro das Flamengas vai finalmente a caminho de ser um projecto coerente com os pressupostos de origem: já tem uma grande zona de lazer (o parque da Bela Vista), uma zona comercial (o Feira Nova), um campo de golfe (nos terrenos dantes ocupados pelo bairro do Relógio) e prepara-se para receber mais empregos, com a construção, que se espera para breve, da nova sede do “Expresso”, da Hemeroteca e da Cidade Judiciária. A presença do antigo bairro camarário (470 fogos num total de 1444), juntamente com os blocos de habitação cooperativa (cerca de 140 fogos), torna-o mais socialmente heterogéneo que outros bairros sociais do vale de Chelas. O futuro dirá se a integração foi conseguida ou não.



Comments: Enviar um comentário

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Weblog Commenting by HaloScan.com