A bela portuguesa (publicado no "Diário Económico")
Deve ser raro o português, ou mesmo o estrangeiro de visita, que nunca se sentou nelas, numa qualquer esplanada de um bar. É um clássico do design, um daqueles objectos que se integraram tão bem no nosso quotidiano que quase não damos por eles a não ser quando lhes sentimos a falta. Quase tão simples como um clip, são apenas quatro peças. Um tubo desenha o arco das costas, prolonga-se em braços e curva bruscamente, num ângulo obtuso que o transforma em duas pernas traseiras; outro tubo contorna o assento, ligeiramente inclinado para trás, e desce em ângulo recto até ao chão. Uma chapa curva une os dois tubos e forma a superfície das costas; outra chapa preenche o lugar do assento, curvando-se um pouco à frente. Os dois tubos são soldados por outros dois mais pequenos à altura do assento. Temos uma cadeira, confortável, sólida, resistente e funcional como poucas. Bela e simples, mas sofisticada: o ângulo invulgar das pernas e a inclinação do assento torna-a um pouco aérea, aparentemente instável - uma certa ilusão de que quem nela se senta está suspenso. O tubo curvado dá-lhe outra virtude: não tem arestas.
Sempre em ferro pintado, fabricam-se em todas as cores. Durante os anos 80 quase desapareciam, substituídas pelas infames e baratuchas cadeiras de plástico branco que quase se derretem com o calor no Verão das nossas esplanadas, até que uma série de felizes coincidências as revitalizou. O local de uma delas é o Centro Cultural de Belém, onde ela aparece, como tantas vezes acontece em Portugal, depois de uma volta pelo estrangeiro. Santos da casa não fazem milagres, e também a nossa cadeira precisou de consagração internacional, mais precisamente na grande potência do design contemporâneo que é a Itália.
Acontece que a "Domus", uma prestigiada revista italiana de design, publicou nos inícios dos anos 90 um elogioso artigo sobre a cadeira portuguesa de esplanada, com o CCB em plena construção. Como o espírito dos arquitectos do CCB, Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, era o de uma reinterpretação moderna da arquitectura monumental portuguesa, a equipa do Atelier Daciano Costa, responsável pela concepção e selecção do mobiliário do CCB pensou que a cadeira - um clássico modernista bem português - era perfeita para as esplanadas do centro. A encomenda foi feita a um fabricante de Aveiro, a Adico.
Em simultâneo, a Câmara Municipal de Lisboa dá mais uma ajuda. Numa iniciativa contra o desaparecimento e degradação das esplanadas da capital, toma a iniciativa de promover novas esplanadas. Por um lado, proíbe a utilização de cadeiras de plástico e, por outro, obriga os comerciantes a adoptarem, nomeadamente na Baixa, a cadeira portuguesa, indo ao ponto de prescrever determinadas cores conforme as zonas.
Pela mesma altura, o designer Sena da Silva, um dos patriarcas do design em Portugal juntamente com Daciano Costa, interessa-se pela cadeira e contacta um fabricante, a Arcalo, de Algés. Deste contacto nasce em 1992 um artigo nos "Cadernos de Design", uma publicação do Centro Português de Design, de que Sena da Silva era na altura presidente. A cadeira tem honras de capa com uma bela fotografia a cores, e o artigo no interior traça-lhe a história, dá-lhe um pai e baptiza-a com o nome do progenitor: cadeira "Gonçalo", o serralheiro da Arcalo que, nos anos 50, terá criado a cadeira a partir dum modelo anterior, também de sua autoria.
Mas a questão não é pacífica, e João Paulo Martins, arquitecto, professor e colaborador do Atelier Daciano Costa, mostra-se céptico: tanto quanto se sabe, os móveis tubulares aparecem em Portugal por volta dos anos 30, em cafés e hospitais. Um exemplo destes primeiros modelos, de 1935, pode ser visto ainda no Café Nicola, no Rossio de Lisboa. A inspiração viria da Alemanha e da famosa Bauhaus, onde Marcel Breuer desenhou nos anos 20 uma das mais célebres cadeiras do século XX, feita em tubo de aço. Quanto à nossa cadeira, são notórias as semelhanças na estrutura com uma outra cadeira tubular, desta vez francesa e desenhada por outra celebridade, René Herbst, em 1928. Só que esta era uma cadeira de interior, estofada. O material histórico que consultou não é concludente quanto à época precisa em que a cadeira portuguesa apareceu, mas parece ter-se vulgarizado nos anos 50, um pouco anacronicamente, quando no resto da Europa o mobiliário tubular já tinha passado de moda.
Em meados dos anos 90 a Arcalo acaba por registar o modelo, com o nome de Cadeira Gonçalo. Mas o rival aveirense contesta: "Quando a criança é bela todos lhe querem ser o pai", dizem os responsáveis da Adico, e afirmam que ainda a Arcalo não era nascida já eles a produziam, assim como muitas outras fábricas: nos catálogos da fábrica de Aveiro chama-se simplesmente "Cadeira Portuguesa".
Seja como for, não é por acaso que a cadeira que perdurou até hoje: é sem dúvida uma obra-prima, possivelmente anónima como outras obras-primas do design. Paulo Parra, designer e também professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, concorda: é um objecto perfeito, só possível de melhorar substituindo o ferro pelo alumínio, mais caro, mas mais leve e duradouro. O que está para acontecer em breve, e teremos então uma bela portuguesa ainda mais perfeita.

Cadeira Gonçalo, Arcalo, 1992
Sempre em ferro pintado, fabricam-se em todas as cores. Durante os anos 80 quase desapareciam, substituídas pelas infames e baratuchas cadeiras de plástico branco que quase se derretem com o calor no Verão das nossas esplanadas, até que uma série de felizes coincidências as revitalizou. O local de uma delas é o Centro Cultural de Belém, onde ela aparece, como tantas vezes acontece em Portugal, depois de uma volta pelo estrangeiro. Santos da casa não fazem milagres, e também a nossa cadeira precisou de consagração internacional, mais precisamente na grande potência do design contemporâneo que é a Itália.
Acontece que a "Domus", uma prestigiada revista italiana de design, publicou nos inícios dos anos 90 um elogioso artigo sobre a cadeira portuguesa de esplanada, com o CCB em plena construção. Como o espírito dos arquitectos do CCB, Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, era o de uma reinterpretação moderna da arquitectura monumental portuguesa, a equipa do Atelier Daciano Costa, responsável pela concepção e selecção do mobiliário do CCB pensou que a cadeira - um clássico modernista bem português - era perfeita para as esplanadas do centro. A encomenda foi feita a um fabricante de Aveiro, a Adico.
Em simultâneo, a Câmara Municipal de Lisboa dá mais uma ajuda. Numa iniciativa contra o desaparecimento e degradação das esplanadas da capital, toma a iniciativa de promover novas esplanadas. Por um lado, proíbe a utilização de cadeiras de plástico e, por outro, obriga os comerciantes a adoptarem, nomeadamente na Baixa, a cadeira portuguesa, indo ao ponto de prescrever determinadas cores conforme as zonas.
Pela mesma altura, o designer Sena da Silva, um dos patriarcas do design em Portugal juntamente com Daciano Costa, interessa-se pela cadeira e contacta um fabricante, a Arcalo, de Algés. Deste contacto nasce em 1992 um artigo nos "Cadernos de Design", uma publicação do Centro Português de Design, de que Sena da Silva era na altura presidente. A cadeira tem honras de capa com uma bela fotografia a cores, e o artigo no interior traça-lhe a história, dá-lhe um pai e baptiza-a com o nome do progenitor: cadeira "Gonçalo", o serralheiro da Arcalo que, nos anos 50, terá criado a cadeira a partir dum modelo anterior, também de sua autoria.

Cadeira, René Herbst, 1928
Mas a questão não é pacífica, e João Paulo Martins, arquitecto, professor e colaborador do Atelier Daciano Costa, mostra-se céptico: tanto quanto se sabe, os móveis tubulares aparecem em Portugal por volta dos anos 30, em cafés e hospitais. Um exemplo destes primeiros modelos, de 1935, pode ser visto ainda no Café Nicola, no Rossio de Lisboa. A inspiração viria da Alemanha e da famosa Bauhaus, onde Marcel Breuer desenhou nos anos 20 uma das mais célebres cadeiras do século XX, feita em tubo de aço. Quanto à nossa cadeira, são notórias as semelhanças na estrutura com uma outra cadeira tubular, desta vez francesa e desenhada por outra celebridade, René Herbst, em 1928. Só que esta era uma cadeira de interior, estofada. O material histórico que consultou não é concludente quanto à época precisa em que a cadeira portuguesa apareceu, mas parece ter-se vulgarizado nos anos 50, um pouco anacronicamente, quando no resto da Europa o mobiliário tubular já tinha passado de moda.
Em meados dos anos 90 a Arcalo acaba por registar o modelo, com o nome de Cadeira Gonçalo. Mas o rival aveirense contesta: "Quando a criança é bela todos lhe querem ser o pai", dizem os responsáveis da Adico, e afirmam que ainda a Arcalo não era nascida já eles a produziam, assim como muitas outras fábricas: nos catálogos da fábrica de Aveiro chama-se simplesmente "Cadeira Portuguesa".
Seja como for, não é por acaso que a cadeira que perdurou até hoje: é sem dúvida uma obra-prima, possivelmente anónima como outras obras-primas do design. Paulo Parra, designer e também professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, concorda: é um objecto perfeito, só possível de melhorar substituindo o ferro pelo alumínio, mais caro, mas mais leve e duradouro. O que está para acontecer em breve, e teremos então uma bela portuguesa ainda mais perfeita.
Comments:
Tenho uma bicicleta estática da Adico que parece inspirada nesta cadeira, um design tubular e curvo que é um objecto de decoração fantástico.
Não tenho sitio para a guardar, se alguem a quiser comprar eu vendo. 91 784 32 54
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