Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Alfinetes e Marquês de Abrantes (capítulo inédito dum livro que provavelmente nunca será publicado) 

Esta é uma das zonas do vale de Chelas em que mais se sente a nova cidade a tomar forma e consolidar-se. O relevo pouco acidentado facilita – um suave declive que desce da colina do Bairro do Condado para o rio. Já de si este é, de todos os bairros do vale, e apesar de todos os eventuais problemas arquitectónicos que possa ter, aquele em que mais se sente o fervilhar da vida urbana, pessoas nas ruas, lojas, cafés, esplanadas. A proximidade entre o Condado e as diversas fases do Marquês de Abrantes e dos Alfinetes permite antever para dentro de poucos anos um pedaço de cidade contínuo e integrado, apesar da heterogeneidade de estilos arquitectónicos e urbanísticos. A presença da Escola Secundária de Marvila, estrategicamente colocada no centro, contribui bastante para a unidade do conjunto.
Tal como acontece noutros locais de Chelas, o mesmo nome reúne urbanizações de características muito diferentes, distintos modos de pensar a cidade, mas aqui a proximidade entre elas acaba paradoxalmente por diluir esse efeito.
A identificação dos lugares não é fácil. O nome de Bairro dos Alfinetes serve para designar várias urbanizações muito diferentes e nem sempre contíguas, enquanto no Bairro Marquês de Abrantes os contrastes existem mas não tão grandes. Algumas ruas ainda não têm nome – as pessoas do Piano reclamam por morarem na rua J13 e não na Rua Artur Duarte, de que esta é um prolongamento. Os prédios não têm números de polícia e são referidos pelos números de lote, nem sempre dispostos em sequência. Finalmente, as pessoas que aqui vivem foram na sua maioria realojadas do antigo Bairro Chinês, mas não todas, e há dois conjuntos urbanos bem marcados cujos habitantes vieram de outros locais. O resultado é que, mesmo para os elementos do gabinete local da Gebalis, os blocos urbanos são chamados principalmente pelas suas cores dominantes: os prédios cor de rosa, os azuis e amarelos, os verdes e amarelos, o Piano. Entre os habitantes, os nomes podem variar – os da fase I dos Alfinetes não querem ser conotados com os da fase III, e dizem que moram nas Salgadas, que de facto é o nome de um bairro camarário mesmo ao lado. Enfim, se as urbanizações são muito heterogéneas, a toponímia é confusa, e o mapa mental que resulta daqui é caótico. É um problema que dificulta a apropriação do espaço pelas pessoas e coloca alguns problemas à sua auto-estima de moradores. A equipa da Gebalis está consciente disso – mas a toponímia é uma questão na alçada da complicada burocracia camarária, e por isso o máximo que se faz é pôr umas placas identificativas dos bairros, de resto utilíssimas para os forasteiros.
A paisagem urbana não é nada confusa, no entanto. Quem sai do Condado pela avenida principal encontra, ainda dentro do pequeno planalto, três torres vermelhas e brancas de habitação cooperativa onde alguns fogos estão sob administração da Gebalis. A proximidade do Condado e o comércio nos rés-do-chão fazem com que estejam plenamente nele integrados.
Ao sair do Condado, temos do lado direito a primeira fase do Bairro dos Alfinetes, construída em 1995: debruçados em paralelo sobre o vale, quatro altos, grandes e densos blocos cor de rosa serviram para os primeiros realojamentos do Bairro Chinês. Fazendo com este um ângulo de 45º, seguem-se quatro outros prédios mais baixos, os verdes e amarelos, onde foi realojada parte da população da Quinta do Coxo. Continuando para a esquerda, surge-nos, virada na direcção do rio, a recentíssima e simpática urbanização dos prédios azuis e amarelos, cujos moradores vieram de um dos últimos bairro de barracas em Lisboa, a Curraleira. Passando o último bloco dos Alfinetes, deparamos com uma deliciosa reminiscência de outros tempos: uma construção apalaçada de aspecto barroco, praticamente em ruínas, onde resiste estoicamente a sede do Futebol Clube Recreativo das Azinhagas, a bem dizer mais uma taberna com uma pequena sala de troféus e uma deliciosa mesa de matraquilhos num espaço coberto mas aberto para a rua. É a antiga casa senhorial da Quinta das Fontes, que vai ser recuperada como pólo cultural – a futura Casa da Escrita.
Continuando, encontramos o Marquês de Abrantes, com os discretos prédios amarelo-claro em U da última fase, e mais, acima, o grande bloco quase triangular com uma praça interior, o chamado Piano. Acima do bairro, outra colectividade resistente, o Futebol Clube do Rossão.
Apesar de terem sido construídas num espaço de tempo tão curto – uns cinco anos apenas - estas urbanizações representam, curiosamente, um pouco da história da evolução dos modos de pensar a cidade ao longo do século XX: desde a construção densa em altura e sem comércio ao nível da rua – os blocos da primeira fase dos Alfinetes – até ao contemporâneo regresso ao conceito tradicional de cidade, com uma ocupação menos densa, prédios baixos em U com zonas comerciais e de lazer viradas para o exterior – as últimas fases dos Alfinetes e do Marquês de Abrantes – passando pelo conceito de bloco comunitário, com os espaços de lazer no interior, do Piano, a evocar outras utopias urbanas.

Dos palácios da aristocracia rural aos bairros pobres do proletariado

Ao contrário do que possa parecer, a ocupação urbana deste novo pedaço de cidade não representa uma ruptura com o passado, antes uma continuidade de que muitos dos habitantes são também testemunhos vivos. As ruínas do Palácio dos Alfinetes e do solar da antiga Quinta das Fontes, com o seu clube, e a sede do Futebol Clube do Rossão, de finais dos anos 60, são os testemunhos materiais a ligar ocupações sucessivas, desde as propriedades agrícolas da aristocracia rural das antigas quintas da periferia lisboeta até à presente cidade moderna, passando pela memória da antiga cintura industrial e dos seus operários.
Toda esta zona era, até meados do século XIX, constituída por várias quintas pertencentes a nomes sonantes da aristocracia – o duque de Lafões, o marquês de Marialva, o marquês de Abrantes – que foram depois desmembradas e compradas à nobreza decadente pela classe ascendente de comerciantes e industriais. Mais tarde, em meados do século XX, começaram a surgir em torno do abandonado palácio dos marqueses de Abrantes as primeiras habitações clandestinas, ocupadas por trabalhadores nas indústrias do então florescente arrabalde industrial do oriente de Lisboa – a Fábrica Nacional de Sabões, a Fábrica de Borracha, a Fábrica dos Fósforos e os grandes armazéns vinícolas da Abel Pereira da Fonseca. Em pouco tempo toda a antiga quinta dos marqueses de Abrantes, delimitada a oeste pela Azinhaga dos Alfinetes e a leste pela Rua José do Patrocínio, e entretanto separada do palácio pela linha de caminho de ferro, daria origem ao Bairro Chinês, um dos maiores bairros de barracas da Lisboa oriental, que chegou a ter cerca de 5 mil habitantes. Ninguém sabe porque se chamava Bairro Chinês a este aglomerado de personalidade vincada em que predominavam operários que trabalhavam nas mesmas fábricas e perpetuavam a ligação às suas terras de origem, mantendo solidariedades e laços familiares. Como sempre acontece nas migrações, os seus habitantes tinham uma origem comum – eram antigos camponeses da Beira Alta, em especial de Castro Daire e Resende.
O futebol estava também presente como factor de identificação colectiva, com o mais carismático dos clubes lisboetas para além dos três grandes: o Oriental, famoso pelo entusiasmo da sua massa associativa nos jogos disputados em casa, e cujo campo ficava no topo norte do bairro.
Separada da antiga quinta dos marqueses de Abrantes pela Azinhaga dos Alfinetes, a Quinta dos Alfinetes, antiga Quinta do Condado, era aproveitada pelos habitantes do Bairro Chinês para cultivar as terras no tempo livre que as fábricas lhes deixavam. Ao cimo da Azinhaga dos Alfinetes, o antigo Palácio do Condado, agora conhecido por Palácio dos Alfinetes por nele ter funcionado uma fábrica de alfinetes, perpetuava a memória da antiga aristocracia rural.

O presente

Cristina Gonçalves, técnica da Gebalis no Gabinete do Bairro dos Alfinetes, recorda-se de ver, nos terrenos ao lado do edifício onde fica o gabinete, os rebanhos a pastar e as hortas onde os operários do Bairro Chinês cultivavam as suas origens camponesas. Ainda hoje muitos antigos moradores do bairro operário mantêm as suas casas nas aldeias de origem, e cultivam essa ligação em festas anuais que reproduzem na grande cidade as romarias camponesas. O entusiasmo com que encaram as festas de Santo António (a quem os habitantes fizeram questão erigir um trono em materiais perenes) e participação activa nas marchas dos Santos Populares mostram, por outro lado, uma integração plena no imaginário lisboeta e são um elo de identificação com os outros bairros populares da cidade – Alfama, Castelo, Bica, Graça, Madragoa, por sinal todos eles também de fortes tradições operárias. Na opinião dos técnicos da Gebalis, os antigos habitantes do Bairro Chinês formam uma população trabalhadora, perfeitamente integrada e colaborante. O realojamento foi faseado, primeiro nos grandes blocos cor de rosa dos Alfinetes e, entre 1995 e 1997, e entre 1997 e 2000 no Piano do Marquês de Abrantes, num total de 292 fogos. O grande terreno ainda livre entre a Escola Secundária e o Piano ainda é cultivado, e o campo do Oriental lá continua, no topo de um conjunto de velhos pátios e casas degradadas dantes contíguas ao Bairro Chinês, que serão demolidas para a expansão das instalações do clube, sendo os seus habitantes realojados, em princípio, nos 212 fogos dos prédios da última fase do bairro Marquês de Abrantes.
A Quinta do Levy e o Pátio Manuel Alves são outros dois bairros degradados de Marvila mais pequenos que viram parte dos seus habitantes realojados nos Alfinetes.
O grande problema social do bairro são os moradores dos blocos verdes e amarelos onde se situa o gabinete (192 fogos), onde foram realojados parte dos moradores da Quinta do Monte Coxo, um bairro de lata que ficava na zona das Olaias. Os moradores mantêm a cultura de desinserção do bairro de origem, num contraste com os operários das urbanizações vizinhas, e fazem deste pequeno conjunto de prédios quase um gueto onde os outros evitam passar. E de onde os de lá também evitam sair: “Muitos jovens só conhecem de Lisboa o percurso de autocarro entre os Alfinetes e as Olaias” (onde ficaram realojados os restantes moradores do Monte Coxo), diz Cristina Gonçalves. E o caminho para a piscina dos Olivais, que começaram a frequentar no âmbito dum programa de inserção social. “Mas desde que aprenderam a ir sozinhos para lá começaram a fazer distúrbios, e acabaram por ser proibidos de entrar na piscina.”
São jovens que aos 16 anos nunca frequentaram a escola, analfabetos perdidos na grande cidade que seguem o exemplo dos pais, recusando qualquer emprego fixo: sobrevivem de biscates, pequenos furtos, esquemas diversos, venda de artigos roubados, tráfico de droga. Recorrem ao rendimento mínimo garantido, acabam por perder-lhe o direito por não cumprirem as regras de tentativa de inserção social, e recorrem de novo assim que podem. Há sempre moradores que estão presos, com os filhos entregues a um parente. É uma rede fortíssima de solidariedade assente em laços familiares muito estreitos, uma tradição que vem dos tempos do Monte Coxo – famílias ligadas em simultâneo por diversos laços de parentesco, irmãos que casam com irmãs de outras família, primos por vários lados ao mesmo tempo.
Quanto à nova urbanização azul e amarela, tem sido uma agradável surpresa para os funcionários do gabinete, cujos apartamentos com vista para o Tejo quase lhes fazem inveja. As zonas de convívio viradas para o rio para o rio são muito agradáveis, mas tudo o que é espaços comuns são dores de cabeça para a Gebalis, diz Sandra Pinto, a responsável pelos espaços verdes e arranjos exteriores. A má fama da muito mediática Curraleira, de onde vieram os primeiros habitantes fazia-lhe temer o pior – vandalizações, usos indevidos. Mas não. Pelo contrário, as pessoas mostram-se muitos contentes e ciosas da sua bela urbanização, e as únicas queixas que aparecem são dirigidas aos jovens do antigo Monte Coxo.
Este é um projecto “chave na mão”, ou seja, tudo, desde do projecto de arquitectura à concepção e construção, foi da responsabilidade do empreiteiro, ao contrário da grande maioria das outras urbanizações em que a arquitectura é da responsabilidade da CML e a construção adjudicada. Jorge Tomás, responsável pela manutenção dos edifícios, mostra-se satisfeito com esta solução, que não lhe tem dado grande trabalho.
Nas outras urbanizações da zona, como na generalidade dos os bairros cuja gestão está confiada à Gebalis, foi preciso fazer correcções e melhoramentos, principalmente relacionadas com problemas de infiltrações e excesso de humidade: impermeabilização dos exteriores, mal executada pelos empreiteiros, fecho de escadas abertas que contribuíam para a degradação dos prédios. Também recorrente é a concepção inadequada das portas exteriores, com partes inferiores em vidro que se quebra facilmente, além de outro pormenor quase omnipresente e algo irritante: os projectos raramente incluem estendais exteriores.
Com a recuperação previstas do Palácio dos Alfinetes e da casa da Quinta das Fontes, o arranjo dos espaços exteriores, uma toponímia que dê sentido a todo este conjunto urbano e melhores transportes públicos (e porque não pensar em ligações eficazes à estação ferroviária de Braço de Prata), e beneficiando da proximidade com o Condado, que tende a assumir-se como lugar central de todo o vale, esta poderá ser uma das primeiras zonas do vale de Chelas a perder o carácter suburbano que ainda se sente para se transformar num aprazivelmente caótico e vivo pedaço da grande cidade. Finalmente, em breve serão construídos mais seis lotes para cooperativas de habitação (dois no Marquês de Abrantes e quatro nos Alfinetes, num total de 251 fogos, mais 29 para realojamento), trazendo para a zona uma saudável diversidade social.

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